Há 73 anos a última Missa do Padre Kentenich no Santuário Tabor

Hoje, 10 de março, há 73 anos, o Padre José Kentenich celebrou sua última Santa Missa no Brasil.

Era um tempo muito difícil para a Família de Schoenstatt, pois havia iniciado um período de dura provação para o Padre Kentenich e sua Fundação, no qual a Igreja impôs a separação do Fundador e sua obra. Foram 14 anos de ‘exílio’ onde o amor à missão presenteada por Deus a Schoenstatt e o amor à Igreja foram acrisolados e purificados, colaborando para que o Movimento desse muitos frutos de santidade.

Como já estava separado de sua obra, as Irmãs não estavam nesta Santa Missa no Santuário, mas foram despedir-se do Pai e Fundador. Cordialmente, apertou a mão de cada uma. Para a maioria foi a última vez que o viram fisicamente.

Logo após, Padre Kentenich partiu e tomou um trem rumo à Argentina, de onde seguiu viagem ao Chile. Posteriormente viajou aos Estados Unidos, a Milwaukee, onde permaneceu até o ano de 1965.

Foto: Santuário Tabor (arquivo Irmãs de Maria de Schoenstatt)

 

A última visita do Padre Kentenich a Santa Maria – testemunho da Ir M Raquel Mainardi

Ontem, 14 de fevereiro, recordamos o dia que o Padre José Kentenich chegou para sua última visita a Santa Maria, no ano de 1952. Foi sua 10ª visita a Santa Maria e ao Brasil. Já exilado e a caminho para o destino de seu exílio, nos Estados Unidos, veio aqui pregar o “Terciado” aos Padres Palotinos.

Ir M Raquel Mainardi foi testemunha deste dia e de alguns acontecimentos desta última visita do Pai e Fundador. Ela nos conta.

“Como juvenista tive o grande privilégio de estar presente já no momento de sua chegada, da qual guardo as mais gratas recordações.

Lembro-me que chegou no fim da tarde, e havia um grande número de sacerdotes Palotinos, Irmãs de Maria e nós as juvenistas, em torno de 60 vocacionadas, que aguardávamos ansiosos sua chegada em frente ao Santuário.

Ei-lo que chega! Alegre, descontraído e entusiasmado e com muita alegria e cordialidade veio ao encontro dos que ali se encontravam. Todos queriam lhe estender a mão. Foi aquela disputa para o cumprimentar e pegar sua mão, ou ao menos se contentar em alcançar um dos seus dedos. Não lembro qual consegui pegar, mas lembro bem que peguei um deles.

Com fé e muita piedade ele entrou no Santuário para saudar a querida Mãe e Rainha de Schoenstatt.

O que mais me tocou na pessoa do Pai e Fundador, nos dias que aqui esteve nesta visita, foram as Missas que ele celebrava no Santuário, algumas das quais nós podíamos também participar. Nestas Missas algo que me marcou e ainda visualizo em minha memória, é a unção com que ele nos dava a comunhão. Nós nos ajoelhávamos na mesa sagrada e ele caminhava ao longo da mesma para distribuir a hóstia; quando chegava no fim, pegava a patena, que cada uma segurava para comungar, voltava novamente para o início da mesa da comunhão.  Caminhava de um lado para outro bem reto, com passos firmes e rápidos, tantas vezes quanto fosse necessário, até todos terem comungado. Impressionava-me a sua piedade e delicadeza ao dar-nos Jesus, mas ao mesmo tempo ele olhava para cada uma de nós.

Em tudo podia sentir que era alguém que estava entre nós, mas todo o seu ser era uma imagem viva de Jesus, um reflexo de Deus Pai.

Aos domingos, nós juvenistas podíamos também assistir as palestras que ele dava para o Movimento na Casa de Retiros. No dia 02 de março participamos das 3 palestras que ele deu. Como éramos muitas, nos sentávamos nas duas grandes escadarias. Na primeira palestra deste dia, ele falou sobre significado do Jardim de Maria:

“O que nos diz a palavra ‘Jardim de Maria em seu sentido próprio, em nossa compreensão? É o Jardim de Maria da querida Mãe de Deus; ele pertence à Mãe de Deus. Neste jardim há diversos canteiros. Que aspecto tem os vários canteiros? O primeiro, segundo, terceiro, quarto canteiro? Lá no meio ainda há outro, o último canteiro. Nos canteiros há flores. Eu deveria conhecer melhor a botânica para sinalizar as flores. Quem são estas flores? (O primeiro canteiro) são os nossos padres: ‘Dente de leão’. Minha sabedoria já terminou. O 2º canteiro…, o 3º canteiro…, o 4º canteiro – os Ramos, e depois o 5º canteiro, a ‘jovem verdura’… Trata-se de descobrir qual a flor que expressa mais o nosso modo de ser.” (cf. J. Kentenich, O testamento do Pai Fundador, 02.03.1952)

Ao falar sobre a “jovem verdura” referiu-se às juvenistas. Nós não gostamos da ideia de ser verdura, pois também queríamos ser uma flor no Jardim de Maria.

Lembro que formamos um grupinho de juvenistas para ir falar sobre o assunto com ele. Éramos umas 4 ou 5 e entre elas estava, a Ir. M. Assunta, que falava alemão. Eu também fui junto, pois queria dar minha sugestão e chegar mais perto do Padre Kentenich. Antes da palestra da tarde fomos ao segundo andar da Casa de Retiros, à esquerda de quem sobe as escadarias, e ficamos esperando perto do quarto dele, aguardando sua saída para dar a palestra. Ao sair do seu quarto ele nos cumprimentou com muita alegria e amabilidade. Nós logo lhe apresentamos a humilde queixa, de que não queríamos ser verdura, mas flores, ao menos violetas escondidas debaixo das folhas verdes. Ele nos ouviu, sorriu e demostrou muita alegria com a nossa reclamação. Descemos a escadaria radiantes, sentindo-nos vitoriosas.

Ao iniciar a palestra ele disse: “Primeiro devo corrigir um erro. Hoje de manhã descobrimos verdura no Jardim de Maria. A verdura se defendeu. De certo troquei violetas com verdura. De cima só se pode enxergar o verde, mas embaixo está cheio de violetas”.

Não sei se podem imaginar a alegria estampada no rosto das mais de 60 juvenistas, ao ouvirmos isto dele. Estas palavras e o gesto do Pai ficaram gravados bem profundamente em mim, que as guardo até hoje.

Quis a Providência Divina mostrar sua predileção comigo, também de poder ver o Pai pela última vez no dia do meu aniversário, 10 de março de 1952.  Sou também profundamente grata à Mãe de poder testemunhar já tantas vezes em palestras ou individualmente a vivência de ter conhecido o Pai e Fundador, embora ainda pequena.

Hoje posso expressar um pouco minha gratidão ao Pai e Fundador pelo desempenho da tarefa que me foi confiada na secretaria da causa de sua beatificação.”

 

Ir M Raquel Mainardi

Atualmente responsável pelo Secretariado Padre José Kentenich, em Santa Maria/RS, que se empenha em prola da bearificação do Fundador da Obra de Schoenstatt.

 

 

 

 

Fotos: Grupo de Padres Palotinos reundos em formação com o Padre Kentenich e palestra do Padre Kentenich no hall de entrada da Casa de Retiros, em Santa Maria, em março de 1952 (Arquivo Província Tabor).

Novena ‘Livre em Algemas’ – 9º Dia

9º DIA – A LIBERTAÇÃO

Na Semana Santa de 1945, de repente, toda a situação do Campo de Concentração mudou. Dizia-se que os sacerdotes alemães seriam postos em liberdade. De fato, alguns foram demitidos do Campo, enquanto outros aguardavam, na incerteza, entre a liberdade ou um “transporte de morte”.

Padre Kentenich nos relata o momento de sua liberdade: “Dia 5 pela manhã tive o reconhecimento claro de que no dia seguinte eu seria livre. Na manhã seguinte, dia 06 de abril, fui ao campo da chamada com o pensamento de que ficaria livre. De repente, chamada! Estou livre!… Exteriormente livre, porque livre eu sempre fui. Pensei: agora poder ir para onde e como quiseres! Deixei o Campo. Sexta para sábado, 7 de abril, a Juventude de Schoenstatt veio encontrar-me. Comecei logo a fazer conferências. Como são maravilhosos os planos de Deus!”

Na viagem de regresso de Dachau a Schoenstatt, que levou 14 dias, onde o Padre Kentenich se detinha, geralmente nas Casas Paroquiais, era logo assediado por membros da Família de Schoenstatt. Todos queriam ouvi-lo e alegrar-se com ele, bendizendo ao Senhor pela proteção maravilhosa durante o tempo de prisão.

As estradas de rodagem e as ferrovias estavam em grande parte destruídas, isto porém não impedia as viagens. Vinham a pé ou de bicicleta. Até mesmo o Padre Kentenich comprou um coche com dois cavalos e assim pretendia chegar em Schoenstatt. porém para a alegria de muitos, a planejada viagem com os cavalinhos não foi necessária. Pe. Menningen conseguiu arranjar um carro, gasolina e o visto das autoridades policiais para ir buscá-lo.

Depois de muitas peripécias, raiou afinal o dia 20 de maio de 1945. Era domingo de Pentecostes. O brilho do sol, o céu azul e a vegetação anunciavam por toda a parte a Primavera.

Apesar das belezas naturais, durante a viagem, ao longo das estradas só havia ruínas, cidades inteiras destruídas. Por toda a parte havia desolação total.

Chegando, porém, ao vale de Schoenstatt, na terra sagrada da Mãe de Deus, Padre Kentenich contempla as belezas de um paraíso. Parece até que a natureza primaveril está mais feliz, sorrindo de alegria. Tudo estava intato. Nenhum vestígio dos horrores da guerra.

Mas se toda a Alemanha era um montão de ruínas, como foi possível que Schoenstatt ficasse preservado? A realidade estava ali, não havia dúvidas, porém inexplicável. A não ser a prova visível da proteção da Mãe de Deus. Ela protegeu a sua terra, o Tabor de suas magnificências. Milhares de bombas caíram sobre a Alemanha. Em Schoenstatt não caiu nenhuma. Por quê? Schoenstatt, como lugar, está no coração da Alemanha, mas também está de modo especial no Coração da Mãe de Deus. E isto a história nos provou de maneira tão visível pela guerra.

A Aliança de Amor venceu as duras provas e com ela o Santuário, a fonte de vida e de graças para os membros da Obra de Schoenstatt.

Com  a volta do Padre Kentenich, a Obra, que havia se ocultado nas catacumbas, surgiu vigorosa à luz do dia. Os trabalhos foram reiniciados com mais ardor e convicção. Havia um mundo material e espiritual para reconstruir.

O Fundador abraça ardorosamente a tarefa de ajudar a reconstruir o edifício espiritual de um povo abatido pelos horrores da guerra e os longo anos do império do Nacional Socialismo. Embora ele já estivesse nos 60 anos de idade, não pensou em descanso, em férias, para refazer-se dos anos passados na prisão. Ele tinha muito para fazer. Tratava-se agora de introduzir na Obra as ricas experiências acumuladas em Dachau.

 

MENSAGEM DO PADRE KENTENICH

“Desde o dia 20 de maio canta e ressoa em nossa alma um afeto que nunca mais  quer calar: é o afeto de gratidão… Não fazemos parte dos nove leprosos que receberam a graça e esqueceram de agradecer… Desde que estou aqui celebrei todos os dias a Missa de ação de graças, em parte em gratidão por tudo o que foi dado aos indivíduos, e em parte pelo que a Família recebeu em dádivas e graças no últimos anos”. (09.06.1945)

“Sempre estamos conscientes de que devemos ser gratos ao bom Deus. Para sermos agradecidos, temos que aprender primeiro a examinar o que Deus operou de modo singular na Família… O que devemos agradecer? Parece-me que se quiséssemos reunir todos os benefícios que como Família total recebemos… teríamos uma corrente sem fim de dádivas de amor do eterno Deus Pai. Dádivas que são uma solicitação de amor e esperam de nós uma resposta de amor”. (1966)

 

  • Na história de minha vida Deus também me conduz com sabedoria e segurança, mesmo quando antes de alcançar a vitória tenha que passar pelo escuro da dor e aflição. Ele sempre me envolve com sua presença, com suas graças e força.
  • Até que ponto sei descobrir e agradecer a proteção e providência divina a conduzir minha vida?

 

PROPÓSITO

Anotarei, hoje, as provas de amor que Deus Pai me concede e manifestar-lhe-ei minha gratidão, rezando o “Magnificat”.

 

ORAÇÃO

HINO DE GRATIDÃO[1]

Caíram as algemas! Da terra sagrada de Schoenstatt se elevem todas as vozes, em jubiloso hino de gratidão.

Na dura peregrinação, Deus manifestou à nossa comunidade sua grandeza e sabedoria, para seu louvor e sua glória.

 A desgraça que o poder e a astúcia de Satanás tramaram, o olhar do Pai transformou em nossa maior felicidade.

O que era terreno no pensar e humano demais na doação, Deus quis orientar para o alto e submergir inteiramente em si.

Assim, hoje estamos estreitamente unidos, fundidos no amor de Deus, lutando incansavelmente contra os descendentes de satanás,

para que surjam homens novos, livres e fortes aqui na terra que, nas alegrias e dificuldades, procedam como Cristo

e somente a Ele vinculem as aspirações de seu coração, assim como a Mãe e Esposa o fez outrora, em sua vida.

(Rumo ao Céu, 612 a 618)

 

[1] Foi composto na prisão de Coblença para a festa da Candelária, 2 de fevereiro de 1942. A partir de 22 de janeiro, festa de São Vicente Pallotti, o Padre Kentenich estava convicto de que voltaria são e salvo do Campo de Concentração. De fato, nesse dia, em Berlim a Gestapo decidiu enviá-lo, não a Mauthausen (Campo de extermínio com morte certa) mas para Dachau. O Fundador pediu às Irmãs de Maria que rezassem esta oração todos os dias, até sua volta. Quando em 20 de maio de 1945 isso aconteceu, tornou-se este hino o cântico da vitória.

 

20 de janeiro: Uma decisão que tornou-se um marco da história de Schoenstatt

 

 January 20

 

Ir. M. Rosequiel Fávero – Todos os anos, o dia 20 de Janeiro é importante para a Família de Schoenstatt. Recordamos a decisão de nosso Pai e Fundador, Pe. José Kentenich, há 83 anos, de aceitar livremente ser enviado ao campo de concentração de Dachau, sem tentar recursos contra sua condenação.

O que viveu o Pe. Kentenich, há 83 anos, nos dias que antecederam ao 20 de janeiro?

Desde outubro de 1941, o Fundador de Schoenstatt fora feito prisioneiro pela Gestapo, a polícia nazista, em Coblença, uma cidade nas margens do rio Reno, próxima a Schoenstatt. A prisão funcionava no prédio de um antigo convento carmelita. Graças a dois dos guardas que ousavam levar clandestinamente correspondência ao Pe. Kentenich, manteve-se um contato frequente entre a Família de Schoenstatt e o seu Fundador.

Em 13 de janeiro de 1942, a Gestapo submeteu o Pe. Kentenich a um novo interrogatório, ameaçando enviá-lo para o campo de concentração de Dachau. Na verdade, essa deportação correspondia a uma sentença de morte, pois poucos sobreviviam aos campos de concentração. Em 16 de janeiro, Pe. Kentenich foi submetido a um exame médico, para constatar se estava apto para ser enviado para o campo. O exame foi uma mera formalidade: nem os pulmões nem o coração foram auscultados. Apesar de sua saúde precária (somente um de seus pulmões funcionava), foi declarado apto. No dia seguinte chegou a Schoenstatt um bilhete escrito pelo punho do Pe. Kentenich: “Acabo de ser examinado em vista do Campo de Concentração. Resultado: apto para o campo. Mas ninguém deve preocupar-se por causa disso”.

A partir desse momento, os dirigentes da Família de Schoenstatt começaram a “puxar todos os fios” possíveis a fim de evitar que o Pai e Fundador fosse enviado para Dachau. Conseguiram que o médico da prisão aceitasse examiná-lo novamente, desde que o Pe. Kentenich o solicitasse por escrito, então ele, talvez, o declarasse inapto para o campo.

 

 

Pe. Kentenich encontrava-se perante uma decisão crucial. Devia assinar esse pedido ou não? O que Deus queria dele? “A inquietação provocada por essa tensão não me abandonava – diria mais tarde – foram dias terríveis. Interiormente lutei e rezei. Não tive nenhuma visão, nenhum sonho, nem sequer uma iluminação especial. Na luta solitária contava apenas com a simples fé na Providência. (…) Horas seguidas andei para cá e para lá na minha cela: lutava, rezava e não sabia o que fazer”.

A noite de 19 para 20 de janeiro foi para o Pe. Kentenich uma vigília de oração. No dia 20, durante a Santa Missa (que celebrava clandestinamente todos os dias na prisão), mais precisamente no momento da consagração, recebeu a certeza interior do que devia fazer: não devia procurar a liberdade graças a meios humanos, mas à entrega total da Família de Schoenstatt a Deus. Assim, afirmou: “De coração, sacrifico a minha liberdade exterior para que nunca falte à Família de Schoenstatt a liberdade interior”.

Como podemos acompanhar nosso Pai e Fundador na busca da vontade de Deus, também quando ela nos leva a optar pelo mais difícil? Que ele interceda junto a Deus por cada um de seus filhos espirituais, para que saibam seguir os seus passos.

 

Fotos: foto atual do local onde estava o antigo convento carmelita transformado em prisão pelo nazismo e memorial que recorda a prisão do Padre Kentenich neste local de setembro de 1941 até março de 1942.

Imagem de capa: Heloísa Seikoski

Fonte: schoenstatt.org.br

 

Novena ‘Livre em Algemas’ – 8º Dia

 

8º DIA  – SEMPRE OUSADO

Neste Dia da Aliança, seguimos nossa preparação para o dia 20 de janeiro. Estamos acompanhando o caminho de ‘liberdade interior’ do Padre José Kentenich no seu tempo de prisineiro no Campo de Concentração de Dachau.

No entanto, Padre Kentenich ia amadurecendo uma mudança de estratégica. Desde sua chegada ao Campo de Concentração tinha se dedicado fundamentalmente à assistência dos coirmãos sacerdotes, procurando formar com eles uma comunidade. De quinze em quinze dias escrevia regularmente para Schoenstatt aproveitando a oportunidade concedida aos prisioneiros. Mas, desde o final de outubro de 1942, soube que as suas cartas não chegavam mais a Schoenstatt. O que tinha acontecido?

Nos começos de novembro, ao revistar uma das casas de Schoenstatt, a Gestapo encontrou uma coleção de cartas do Padre Kentenich escritas em Dachau. Soltas, lidas separadamente, não chamavam demasiada atenção. Mas colecionadas e policopiadas, deviam despertar, indubitavelmente, o interesse da Gestapo. As suas cartas de novembro foram requisitadas pela censura de Dachau e enviada à Gestapo de Coblença. O mesmo aconteceu com a que escreveu para o Ano Novo.

Padre Kentenich decidiu não escrever mais para Schoenstatt por vias legais. Que fazer agora? Renunciar ao contato epistolar? Decidir-se pela via ilegal? Ponderando essas opções. Padre Kentenich preparou-se especialmente para o dia 25 de março de 1943, festa da Anunciação do Senhor, rezando uma novena. Neste dia tomou duas decisões de Transcendência: 1) Daí em diante dedicar-se-ia totalmente à construção da Obra de Schoenstatt no Campo de Concentração; 2) Buscaria, conscientemente, canais através dos quais pudesse retomar, com mais força, a condução da Família fora de Dachau.

A partir de sua decisão de 25 de março, sentiu que Deus não lhe pedia trabalhar para o Campo de Concentração, mas sim para a sua Família de Schoenstatt. providencialmente aconteceu que o chefe de grupo de trabalho, Jakob Koch, o protegia e que o capelão Desbach e um pároco da diocese de Tréves, Ludwig Bettendorf, podiam servi-lo como secretários.

Padre Kentenich, que não escrevia uma só carta desde o mês de janeiro, começou a ditar. Nos meses seguintes ditou centenas, milhares de cartas. Isto era brincar continuamente com a morte. Em Dachau não se podia ter nenhum papel que não estivesse marcado com um carimbo. Um exemplo: em determinada ocasião, um trabalhador tentou escrever algumas coisas simples para sua casa, por vias legais. Foi descoberto e enviado para um transporte da morte.

O problema do Padre Kentenich era como receber resposta de fora. Encontrou a solução seguinte: gente da sua confiança trabalhava no correio do Campo. Todo pacote que chegava devia ser controlado. Mas o que chegava em pequenos pacotes, ou “por expresso”, não estava submetido a essa formalidade. Padre Kentenich  avisou em seguida para fora como deviam proceder. Dali em diante começou a receber, de 14 em 14 dias, um pequeno pacote… cheio de cartas. Isto era perigoso.

Mas nem sempre Padre Kentenich recebia “Pacotes pequenos”. Em março de 1943, um dia próximo da Páscoa, recebeu um pacote enorme que continha uma grande torta. Pe. Fischer disse-lhe que devia observar pessoalmente como era. “Não vais comer da torta – disse-lhe brincando com o Padre Kentenich – mas apenas prová-la”. E enviou-a a um deputado prisioneiro, de nome Joss. Pouco depois o agraciado trazia-lhe de volta. Por fora era uma torta lindíssima…, mas o seu conteúdo era bem outro: Cartas e mais cartas! Padre Kentenich teve que lê-las a toda velocidade. E, em vez de responder uma a uma, lembrou-se de responder com um trabalho às questões fundamentais que lhe punham. Começou a ditar imediatamente, escolhendo para isso o gênero poético, a fim de despistar os carcereiros em caso de ser descoberto nesta atividade: se os seus guardas caíssem ocasionalmente sobre aqueles escritos pensariam certamente – era a reflexão acertada do Padre Kentenich – que o sacerdote prisioneiro não andava muito bem da cabeça ou que encontrara alivio para suas desditas naquele lírico desabafo.

Ao concluí-lo, em janeiro de 1944, alcançava um total de 5.870 estrofes. Ali eram abordadas questões teológicas. Filosóficas. Pedagógicas. Ascéticas e pastorais, de interesse para as superioras das Irmãs de Maria. Chamou-lhe “Espelho do Pastor”. Na primavera quer dizer nos meses de abril a junho, ditou: “Piedade Instrumental Mariana”, obra fundamental da espiritualidade schoenstattiana. Assistia-o como secretário o capelão Dresbach, o qual recorda que o Padre Kentenich “ditava com muita fluidez, sem sequer ter por escrito o esquema do tema em questão”. O trabalho concluía com o “Cântico do Instrumento”, de cujas estrofes dizia assim:

“Ainda que nos ameacem o mundo e o demônio, ou tempestades caiam sobre nós, tu vences todos os perigos e nos concedes o teu imenso poder. O teu coração, porta do céu, é sempre o nosso seguro amparo”.

 

No Padre Kentenich era visível seu espírito de ousadia e vitoriosidade. Trabalhava, incansavelmente, em seus escritos, mas também na formação espiritual dos seus seguidores.

Pelos fins de maio de 1944, tinham se formado no Campo de Concentração vários grupos schoenstattianos de sacerdotes, divididos em dois círculos: dois grupos de dirigentes (“Círculo da Mãe” e o “Círculo do Coração”), e cinco grupos de bases. Integravam-nos sacerdotes da Polônia, Tchecoslováquia, Itália, França, Bélgica, Holanda e Alemanha, unidos pelo comum amor à Santíssima Virgem e a vontade de ser instrumentos seus a serviço da Igreja. O atendimento desses grupos significou para o Padre Kentenich um trabalho e esforço suplementares. Estando proibida em Dachau qualquer reunião organizada, normalmente nunca falava a mais de um grupo de cada vez. Daí que muitas tardes tivessem uma, duas, três – e às vezes quatro ou cinco – reuniões de grupo.

Era outono, tempo de chuvas. As reuniões faziam-se, regra geral, ao ar livre. Era frequente ver o Padre Kentenich com as suas roupas totalmente molhadas, de uma reunião para outra. Nunca se deixou amedrontar pelo mau tempo, mantendo essas conferências do entardecer até a sua libertação, em abril de 1945. Fomentou, além disso, entre os seus coirmãos, o costume de fazer uma renovação espiritual no primeiro domingo de cada mês.

O trabalho com sacerdotes alcançou um momento culminante no dia 18 de outubro de 1944, quando completava 30 anos que Schoenstatt tinha sido fundado. Era um dia de chuva. “Até agora Schoenstatt era uma Obra limitada; hoje ultrapassa esse limite e torna-se internacional”, disse o Padre Kentenich na sua prática aos sacerdotes que representavam diferentes nações.

Como tinha chegado a dar o passo audacioso de fundar uma “internacional” no Campo de Concentração? A resposta é simples: através do mesmo radar que o tinha guiado, e guiaria, ao longo de sua vida: “a Fé Prática na Divina Providência”. Sentia-se fundador de uma obra de dimensões universais; ali havia sacerdotes de diversos países… Deus fala através das circunstâncias.

Dois meses mais tarde, na conferência de 8 de dezembro, esclarecia estes conceitos. Recordava uma afirmação que fazia do apóstolo: “Cor Pauli, Cor Mundi”, quer dizer, o coração de Paulo abarca com o seu amor o mundo inteiro. O nosso coração, que tantas vezes se estreita pelo egoísmo, devia ser como o de Maria, como o de Cristo, como o de Deus: “O nosso coração pertence a todos os homens, a todas as nações, seja qual for o seu nome ou a sua história”.

Numa oração que tinha composto fica consignada, claramente, a sua estratégia internacional:

“De entre todas as nações que aqui padecem escolhe os melhores para entender o teu reino; toma-os como instrumentos em tuas mãos para voltar para o Senhor os destinos dos povos. Em todas as partes torna fecunda a semente de Schoenstatt para a tua glória e para honra e louvor da Santíssima Trindade”.

 

MENSAGEM DO PADRE KENTENICH

“O bom Deus me concedeu a graça de me decidir interiormente, de livre vontade para tudo. Mas também de levar a efeito estas decisões nas situações mais difíceis…

Minha atitude era: eu tenho de cuidar da Família e também arriscar alguma coisa…

O homem do além é o que procura decidir-se ousadamente e agir, estando pronto também a fazer o contrário daquilo que se costuma fazer, em geral. Minha vida de prisão e de Dachau foi uma única e grande arriscada até o fim. (…)

Eu não conhecia o mínimo medo. Isto é bem compreensível: eu tinha doado tudo! Tal atitude requeria uma certa ousadia. O desprendimento interno das coisas faz-nos encontrar a medida certa, que não demonstra o mínimo medo. Eu também não sentia medo no coração. Eu pensei: tudo o que acontece no Campo de Concentração é asneira. Não é o central das coisas. O central é o desprendimento total de si mesmo e o abandono radical a Deus. Isto perfaz a personalidade livre (…)

De onde provém esta vitoriosidade? A fonte é a consciência de instrumento e o desapego de tudo. Depois que fui desapegado de tudo: pessoas, êxito, existência da Família, nada mais ficou do que a convicção: agora vamos ao encontro duma época de maravilhas, de magnificências divinas, como nunca ainda as experimentamos” (Triunfo da Fidelidade).

 

  • Padre Kentenich nunca sentiu medo porque colocou toda a sua vida nas mãos da Mãe de Deus e considerava-se apenas como seu instrumento.
  • Quando sinto medo, aflição, angústia, não deveria renovar a minha Aliança de Amor com mais confiança?

 

PROPÓSITO

Hoje quero agradecer ao bom Deus a graça da aliança e renová-la, através da Pequena Consagração, com grande confiança.

 

ORAÇÃO

EMPUNHA O CETRO[1]

Empunha o cetro, Mãe, protege tua terra de Schoenstatt, ali só tu és Rainha; põe em fuga todos os inimigos.

Cria ali teu paraíso, mantém o dragão algemado. Mulher de sol, surge radiante, eleva-te às alturas meridianas.

Constrói, a partir daqui, um mundo que agrade ao Pai, como outrora Jesus pediu em ardente oração.[2]

Nele reine sempre amor, verdade e justiça, unidade que não massifica, nem leva ao espírito de escravidão.

Manifesta teu poder na escura noite de tempestade; dá que o mundo veja teu atuar e te contemple maravilhado,

que te aclame com amor e se confesse por teu Reino; nele tua bandeira avance com vigor e subjugue vitoriosamente todos os inimigos.

Schoenstatt permaneça teu lugar predileto, baluarte do espírito apostólico, guia que conduz à luta sagrada, fonte de santidade na vida diária;

fogo ardente que flameja por Cristo, espalhando centelhas de luz, até que o mundo, como mar de chamas, arda para a glória da Santíssima Trindade. Amém.

 

[1] Em Dachau os schoenstattianos estavam muito preocupados com a notícia do avanço incontido dos aliados, na região de Coblença, cidade situada nas proximidades de Schoenstatt. O Padre Kentenich escreveu esta oração para uma novena em preparação ao dia 25 de março de 1945, festa da Anunciação. A intenção particular dessa novena era a libertação de Schoenstatt e a preservação do Santuário Original. Nesse mesmo dia, Schoenstatt caiu nas mãos das tropas americanas: não houve mortos, nem feridos, nem ruínas. A oração foi dedicada aos sacerdotes do “Círculo da Mão” (também chamado “Manus Mariae”) e do “Círculo do Coração”.

[2] Refere-se à oração sacerdotal de Jesus na última ceia. Aí ele suplica: “A fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, em mim e eu em ti, que eles estejam em nós…” (Jo 17,21).

 

Foto: detalhe da capela ‘Agonia de Cristo’ no Campo de Concentração de Dachau. Fonte: wikipedia.org

Novena ‘Livre em Algemas’ – 7º dia

 

7º DIA – CONSELHEIRO E FUNDADOR

Logo nos primeiros dias de Dachau o Padre Kentenich colocou-se a serviço de seus coirmãos que com ele se encontravam no bloco de entrada. Enquanto o prisioneiro estava no bloco de entrada era submetido a uma espécie de quarentena. Assim, por exemplo, os padres que estavam no bloco de entrada não podiam participar das missas que eram celebradas diariamente na capela do bloco de sacerdotes alemães. Para que seus coirmãos não ficassem sem alimento espiritual nesta difícil situação, o Padre Kentenich todas as noites dava uma pequena conferência a todos os que quisessem participar. Estas atividades religiosas eram rigorosamente proibidas pelo regulamento do Campo. Mas o Padre Kentenich, logo após sua chegada, conquistara a confiança e o respeito do chefe do bloco de entrada, Hugo Guttmann, assim como a de chefe de alojamentos Willy Bader, que não só permitiam, mas até protegiam as pequenas funções religiosas, embora eles, como comunista e socialista respectivamente, fossem ateus.

As condições de vida nos Campos de Concentração nazistas não eram nada boas em qualquer época do ano. Mas havia anos e meses em que se tornavam particularmente difíceis. No começo de 1942, na ocasião que o Padre Kentenich chegou ao Campo de Concentração, iniciou-se um destes períodos. Os prisioneiros do Campo de Concentração recebiam pessoalmente tão pouco alimento que vivam continuamente no limite mínimo para a subsistência. e a partir de março de 1942 piorou sensivelmente a alimentação dos prisioneiros de Dachau. Já em condições “normais”, a vida no Campo de Concentração era uma prova de resistência. Assim se compreende que uma situação consideravelmente mais grave, como aconteceu em meadas de 1942, foi um verdadeiro desafio.

Nesta situação, em que se tinha a morte sempre diante de si, o Padre Kentenich procurou ajudar seus coirmãos e os companheiros de prisão muitas vezes esquecendo-se de si próprio. Com a maior naturalidade dava de presente os alimentos que lhe eram trazidos ocultamente. E dava não só o que recebia de presente, mas renunciava até mesmo a uma parte de sua ração normal para ajudar a outros.

Como suas relações de amizade depois de poucas semanas no Campo já eram bastante vastas, em vários casos pôde ajudar os companheiros de prisão que já estavam destinados ao transporte para as câmaras de gás, conseguindo que fossem retirados da lista fatal, como foi o caso do conhecido professor de teologia da Universidade de Lovaina na Bélgica, o jesuíta Pe. Léon de Coninck. Quando, certa vez, apesar de seus esforços não conseguiu livrar da morte um sem companheiro, rompeu em pranto, como narra um prisioneiro.

Mas, acima de tudo, Padre Kentenich esforçava-se por fortalecer espiritualmente seus coirmãos sacerdotes. Em suas conferências, que não foram interrompidas mesmo nos meses mais difíceis, mas até estendidas ao horário e local do comando de trabalho, procurava revelar-lhes a vontade de Deus através da situação reinante. Apresentava-lhes o ideal do homem sobrenatural e singelo, do homem cujo “viver está no céu” e que vive da confiança total na realidade de Deus como Pai. Para que seus coirmãos pudessem mais facilmente meditar por si mesmos estes pensamentos fundamentais, resumiu-os no lema: “Nós, sacerdotes do Campo de Concentração de Dachau, vivendo nas condições mais primitivas, não querendo reagir de modo primitivo, mas de modo singelo e autêntico e, se for a vontade de Deus, ou morrer heroicamente no Campo como personalidades sacerdotais fortes ou, mais tarde, como sacerdotes amadurecidos, continuar a trabalhar com zelo e fecundidade para o reino de Deus”. Animava igualmente seus coirmãos a se entregarem a Mãe de Deus e a contarem com o seu poderoso auxílio. Realmente, o Padre Kentenich tinha em mente que o tempo que os sacerdotes deviam passar em Dachau, de acordo com a disposição da Divina Providência, devia ser aproveitado como uma espécie de segundo seminário para continuarem a formar-se como sacerdotes e pastores de almas. Isto lhes possibilitaria aproveitar a experiência do Campo de Concentração para, na nova situação da Igreja e dos fiéis do após guerra, desenvolver um apostolado fecundo. Nas horas duras do Campo ele pôde, assim, ajudar e aconselhar muitos sacerdotes, e mesmo o chefe de polícia.

Ele nos conta: “De todo o Campo as pessoas vêm falar comigo… Isto desenrolou-se de tal maneira que eu tinha minhas horas de audiência. Eu ficava sentado no meu cantinho, escutando os desabafos. Tudo se realizou com extremo respeito”. (Triunfo da fidelidade)

Entretanto, Padre Kentenich dedicava seu tempo livre não só a seus irmãos sacerdotes. No decorrer dos meses de abril e maio teve a oportunidade de entrar em contato mais íntimo com dois leigos católicos do Campo de Concentração: o doutor em ciências sociais e político alemão Frederico Kühr, e o jurista austríaco, Dr. Eduardo Pesendorfer. Ambos trabalhavam na enfermaria do Campo; o Dr. Pesendorfer, como enfermeiro-chefe na seção cirúrgica, e o Dr. Kühr, no escritório. Com o tempo, Padre Kentenich se convenceu de que estes homens lhe tinham sido enviados pela Divina Providência para realizar dois planos que já há muito tempo tinha em mente: a fundação de duas novas comunidades na Obra de Schoenstatt: o Instituto dos Irmãos de Maria e o Instituto das Famílias de Schoenstatt. O Dr. Pesendorfer declarou-se disposto para a fundação do Instituto dos Irmãos e o Dr. Kühr para o Instituto das Famílias, fazendo, porém, uma ressalva, pois sua esposa no momento residia no Brasil, em Rolândia, numa fazenda de café de sua propriedade. É de se admirar o zelo e o espírito de sacrifício com que Padre Kentenich e seus dois candidatos dedicaram tempo e força para a consecução da finalidade a que se tinham proposto. A 16 de julho de 1942, dia comemorativo de Nossa Senhora do Carmo, a formação estava a tal ponto adiantada, que se pôde realizar a admissão e abertura do noviciado.

Durante os anos de prisioneiro ele não cessa de emprenhar tudo para edificar a Obra de Schoenstatt e uni-la como Família, onde se vive o amor mútuo, o espírito de solidariedade.

 

MENSAGEM DO PADRE KENTENICH

“O vosso destino e o meu destino encontram-se, desde há anos, indissoluvelmente unidos um com o outro. Na ordem sobrenatural somos uma Família e daí se deduz o entrelaçamento de destinos. Quando eu me sacrifico pela Família e a Família se sacrifica por mim, trata-se de algo verdadeiramente real, muito mais real do que todas as outras coisas… Sim, compartilhar, e este não deveria estar institucionalizado, mas sobretudo existir a solidariedade de coração a coração. Unir, formando uma unidade sólida: unida de espírito, unidade de corações, de ajuda mútua…” (Textos para compreensão do 20 de janeiro)

  • Padre Kentenich soube compartilhar da sorte pesada e difícil dos prisioneiros, compreendendo-os e tornando-os colaboradores de Schoenstatt.
  • Sou também solidário com os que sofrem, amigo compreensivo para os que me cercam?

 

PROPÓSITO

Neste dia quero seguir o exemplo de solidariedade do Padre Kentenich: confortando alguém que sofre, ou fazendo uma obra de caridade a uma pessoa necessitada.

 

ORAÇÃO

MÃE, EU TE BENDIGO[1]

Mãe, filialmente te bendigo pelas dádivas que corações fiéis me enviaram; em tua bondade os despertaste e de novo serviste, ricamente, a mesa aos meus.

Grato, devolvo os dons de amor em tuas bondosas mãos de Mãe e de coração te peço: dize-me como a distribuição te dá honra e alegria.

Vem, Medianeira dos dons e das graças, tu e o Senhor sejam nossos convidados: une estreitamente o vínculo familiar, de coração a coração, de país a país.

Desprendidos, queremos servir a tua Obra, de coração forte e semblante alegre; e em nosso peregrinar terreno a ti confiamos o cuidado pela saúde e o sustento.

Assim Jesus nos aconselhou um dia: “buscai primeiro o Reino de Deus”, em palavras e obras; o Pai vos dará o restante, por acréscimo, nunca o deixeis em paz, com súplicas filiais.

Por este dons, ensina-nos a subir ao alto e, reverentes, inclinar-nos ante o Amor que, a cada dia, nos abre sempre mais seu inesgotável mar de misericórdia.

Implora as mais copiosas bênçãos de Deus para todos os que se esforçam e se empenham por nós; no árduo caminho da vida, concede-lhes com abundância teu amor e tua graça. Amém.

(Rumo ao Céu, 561 a 567)

 

[1] Esta oração foi composta em novembro de 1944, ocasião em que, como fruto do 3º Documento de Fundação, se desenvolveu muito a vida comunitária dos schoenstattianos em Dachau, Nessas semanas começaram a fazer diariamente uma hora de adoração. Também se introduziram as refeições comunitárias.

No “regulamento para as refeições” que o Padre José Kentenich escreveu, em dezembro de 1944, constava: “Logo que alguém receba um pacote de víveres, rezará a oração de gratidão” (refere-se a esta oração).

Novena ‘Livre em Algemas’ – 6º dia

6º DIA – DACHAU: CÉU OU INFERNO?

Dachau. Um pequeno povoado no sul da Alemanha, não longe da cidade de Munique. Um nome famoso, tristemente célebre no mundo. Não pelo povoadozinho, uns dos tantos em terras da Baviera, mas sim por ser um lugar sinistro: o Campo de Concentração que, a partir de 1933, ali construiu o nacional-socialismo. Num terreno cercado por um grande fosso, com arame farpado, eletrificado, com torres de controle, além da Polícia da SS., com cães amestrados, tinha se levantado 34 barracas, com capacidade para albergar um total de 5.000 prisioneiros (em março de 1942, quando chegou o Padre Kentenich, empilhavam-se ali uns 12.000, cifra que posteriormente elevar-se-ia ainda mais). chamaram-no “o inferno de Dachau”. Ironicamente, o lema do Campo prometia liberdade: “Arbeit macht frei” (“O trabalho torna-nos livres”) dizia um letreiro forjado na grade de entrada.

A verdade era outra: os seus habitantes estavam condenados a viver em condições primitivas, brutais, indignas de um ser humano. “Os Srs. não têm nenhum direito, o povo alemão expulsou-os” – gritava aos recém chegados, na sua primeira instrução, o chefe do Campo. “Os Srs. possuem um só direito, o de serem maltratados”.

A comida era tão escassa que, alimentando-se só com uma ração cotidiana, o prisioneiro praticamente devia morrer de fome. Pela manhã recebia um litro de café, na realidade quase pura água; ao meio dia, um pouco de verdura na “sopa”, que não continha quase nada de gordura; e, à noite, um terço ou um quinto de um pão. Os que podiam, revistavam as panelas com a esperança de encontrar alguma batata ou restos que tivessem ficado; levá-las à cozinha para serem lavadas, era um privilégio. Pela total carência de vitaminas, em muitos prisioneiros produziam-se feridas que não chegavam a cicatrizar. Dachau não só se chamava: era, na realidade, “um inferno”.

Houve momentos de fome tremenda: em 1942, não eram seres humanos, mas sim cadáveres ambulantes que se arrastavam pesadamente pelo Campo de Concentração. E, em 1944, em pleno inverno, quando se declararam diversas epidemias, muitos prisioneiros não eram mais que peles e ossos. Muitas vezes viam-se estendidos pelas ruas ou caminhando apenas, apoiando-se uns nos outros.

Os que chegavam a Dachau tinham sido arrancados de seus lugares, de sua terra natal. Ali esperava-os uma vida totalmente primitiva. No Campo de Concentração não havia quase nada de verde nem flores; apenas se erguia uma fileira de árvores. À sua chegada, os prisioneiros eram instalados na barraca de entrada. No pátio principal eram levados daqui para ali como se fossem escravos. À maneira dos antigos povos pagãos, eram-lhe colocadas cadeias, enganchando-os a carros que deviam puxar, enquanto os da SS., em cima dos carros, davam-lhe chicotadas. Em tudo isso não havia nem casualidade nem improvisação. Agia-se de propósito, com a finalidade de quebrar a personalidade do prisioneiro; fazia-se isto para destruir o que de nobre houvesse no seu caráter. A preparação dos famosos “transportes” – uma viagem sem retorno às câmaras de gás – assemelhava-se a um mercado de escravos.

Os prisioneiros, muitas vezes nus, deviam desfilar diante dos homens da SS.. que escolhiam os que ainda eram capazes de trabalhar; o resto era condenado à morte.

Dachau era “um inferno”. Ali se fizeram experiências com os prisioneiros, como se fossem cobaias de laboratório. Por exemplo, atiravam-nos à água gelada, para ver até onde podiam resistir com vida. Injetavam-se lhes bactérias e outros bacilos, a fim de comprovar a sua reação. Faziam também experiência com a malária. No pavilhão dos doentes cometiam-se atrocidades: homens sem estudos de medicina realizavam operações. Assassinavam. Arrancavam os dentes de ouro dos prisioneiros. E que dizer dos castigos refinadamente cruéis? Por exemplo Sachsengrss: o prisioneiro deveria colocar os braços exatamente atrás das costas, pôr-se de cócoras e saltar. Nessa posição era quase impossível respirar: aguentava um, dói minutos, e logo não podia mais. Então, com frequência, era assassinado. Também era comum tê-los de pé durante horas, às vezes durante todo o dia. (Foi de grande ajuda ao Padre Kentenich o fato de estar acostumado a isso, pois costumava dar as suas conferências de pé, nunca sentado). Outro castigo: o prisioneiro era colocado sobre uma cadeira ou uma escada; as mãos eram atadas com uma corda, que era pendurada numa árvore, retiravam a cadeira ou a escada; o prisioneiro ficava pendurado, no ar, horas seguidas.

Dachau, céu ou inferno? Em meio a esta “cidade de pagãos, de louco e de morte”, Padre Kentenich compõe o “Hino de Minha Terra”, com seis estrofes e o estribilho.

Fala do lugar de Schoenstatt como de uma terra “cálida e familiar que o Amor Eterno preparou para si”; de uma terra “abundante e pura, reflexo da Beleza Eterna”; de uma terra que é “imagem fiel do céu, esse reino de liberdade tão ardentemente anelado”, de uma terra “repassada de alegria, onde os corações vivem num repouso pela posse dos bens eternos”; de uma terra “onde reinam a veracidade, a justiça e o amor”; de uma terra “preparada para o combate, acostumada a vencer em todas as batalhas”. Cada estrofe começa em forma de pergunta: “Conheces tu aquela terra…?” E o coro responde: “Eu conheço essa maravilhosa terra… onde reina Nossa Senhora Três Vezes Admirável… É a minha terra de Schoenstatt!”

O Pai e Fundador da Família de Schoenstatt, com espírito de fé, ousadia e vitoriosidade, vence as torturas desumanas da “cidade de pagãos, de loucos e de morte”.

 

MENSAGEM DO PADRE KENTENICH

“Os dados foram lançados… Para mim o caminho atual é, sem dúvida, o melhor; senão Deus não me levaria por ele. Para mim, vale esta frase: ‘Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos’. Deste modo dirijo e fecundo a Família. Em espírito estou sempre convosco: passaremos a prova de fogo e sairemos depois vitoriosamente do Campo de Concentração. Mater habebit curam! (A Mãe terá o cuidado!) Até logo!”

 

  • Na minha vida também encontro momentos de “Dachau”, quando se fere a injustiça, a falta de liberdade, a perda de direitos, a renúncia do mais querido, a perda de bens, de pessoas, a crise econômica, a falta de dinheiro…
  • O que me diz então o exemplo do Padre Kentenich?

 

PRPÓSITO

Hoje quero renunciar alguma coisa de que gosto (comida, programa de TV…) para partilhar da sorte dos que não têm.

 

ORAÇÃO

ORAÇÃO NA AFLIÇÃO[1]

Mãe, acolhe-nos solícita sob teu manto, que nosso viver seja sempre no céu. Protege-nos da fome, de epidemias e incêndios,[2] a nós que, em grande aflição, recorremos a ti.

Dize a teu Filho, como outrora aqui na terra, quando ajudou em aflições e dificuldades: “Senhor, eles não têm mais vinho, nem alimento”, então, por certo, Ele nos atenderá.

 Em união com o Filho, a ti foi concedido restituir-nos a vida da graça que fora perdida, afastar de nós muitas aflições terrenas, suavizá-las e convertê-las em meio de salvação.

Faze desvelar-se ricamente teu coração materno, onde irrompem, violentas, as potências infernais e manifesta em plenitude teu poder, tua bondade, como Colaboradora de Cristo.

Como teu Filho, quando ainda estava aqui na terra, saciava a fome, consolava e curava os doentes, passa silenciosamente, com Ele, em nosso meio, abençoando e concedendo-nos a onipotência de teu braço maternal.

Manifesta-te ao mundo inteiro como o Grande Sinal, ante o qual se afastam a astúcia do demônio e as aflições terrenas; em ti, os povos encontrem abrigo e redenção e alegres te proclamem Medianeira da salvação.

Nossa aflição tornou-se tão extrema, que sem o teu auxílio perecemos; só tu podes salvar-nos da ruína, vem e vê, como a ti acorremos suplicantes. 

Com teu Filho, sê para nós libertadora da fúria do inferno e da tempestade dos tempos e com gratidão, te bendiremos eternamente, como a grande Mãe dos povos.

Corajosos, queremos propagar o teu nome e conduzir todos ao teu Santuário, para que, plenos de júbilo e amor, aqui na terra e lá no céu, contigo bendigam a Deus Trino. Amém.

(Rumo ao Céi, 501 a 502, 505 a 511)

 

[1] Em fins de dezembro de 1944, o Fundador de Schoenstatt escreveu um regulamento para as refeições da comunidade dos padres schoenstattianos em Dachau. Nesse regulamento diz que, para pôr a mesa em comum em dependência de Deus, se reze diariamente esta oração escrita em 7 de dezembro de 1944, véspera da festa da Imaculada. O pano de fundo é a situação de fome dessa época e o desejo de criar uma comunidade nobre e sobrenatural na hora das refeições. Também preocupa o Padre Kentenich distribuir bem os pacotes de comestíveis que a Família de Schoenstatt lhe enviava, para aliviar a fome dos prisioneiros.

 

[2] No texto original: “Protege de bombas, de granadas e incêndios”. Mais tarde rezava-se:” Protege de epidemias, bombas e incêndios”.

Novena ‘Livre em Algemas’ – 5º dia

 

 

5º DIA – PRISIONEIRO Nº 29.392

No dia 09 de março o Padre Kentenich começou um retiro espiritual, privadamente. Através do seu “serviço de informação” inteirou-se de que dois dias mais tarde o enviariam para Dachau. Imediatamente escreveu para Schoenstatt, dando instruções: “Quarta-feira vou para Dachau… Permaneçam simples, desprendidos, fiéis e fortes… Assim interpreto eu a situação: 1) Uma mudança de ares faz bem. É por isso um ato de amor especial, se me é posto algo assim à disposição. 2) Os sacrifícios que estão unidos a isso serão para-raios para toda a Família. Esta deve, entretanto, preparar-se para tormentas difíceis”. Pediu às Irmãs de Maria que catassem diariamente, até o seu regresso, todas as estrofes do Cântico de Gratidão. “Chegará o dia em que veremos, com clareza, por que tudo aconteceu assim. De qualquer modo fique certo que amemos todos os dias de nossa vida; então tudo correrá bem. Deus permanece sempre magnânimo, também quando nós não o entendemos”.

No dia 11 de março de 1942, na estação de Coblença, junto com outros prisioneiros, o Padre Kentenich esperava o momento de subir para o trem (eram vagões para gado) que os levaria para Dachau. A presença de duas Irmãs de Maria, a certa distância, com o seu vestido azul, punha uma nota de humanidade e delicadeza nessa situação desumana. Padre Kentenich teve como vizinhos o Dr. Caris, Diretor da Caritas, e um comunista que, cheio e angústia, não se afastava de seu lado. Em Wiesbaden, onde mudaram de trem, foram algemados.

Ao longo da viagem não receberam nada de comer nem de beber, sendo guardados por soldados da SS., acompanhados por cães amestrados. Na sexta-feira, 13 de março, depois de dois dias de penosa viagem, chegaram a Dachau. Um prisioneiro recordava a sua chegada: “Por ocasião da entrada no Campo de Concentração, cujas formalidades levavam várias horas, fui testemunha de como ambos os sacerdotes (um deles o Padre Kentenich) foram saturados de mofas e zombarias pelos da SS.”. ao passar pela “Seção Política”, foram fotografados e receberam o seu número, tocando ao Padre Kentenich o número 29.392. O chefe da SS., achando oportuno “abrandar” o recém chegado – que demonstrava muita tranquilidade e firmeza – começou a gritar-lhe grosseiramente, fazendo-lhe Todo tipo de pergunta.

Não recebendo respostas – Padre Kentenich olhava-o com tranquilidade e sorria-lhe cordialmente – enfurece-se mais ainda, fazendo um gesto de bater-lhe. Mas não chegou a fazê-lo. Dias mais tarde, ambos tornaram a se encontrar no escritório no qual se depunham os dados pessoais. O chefe reconheceu-o imediatamente.

– Eh! Que o prisioneiro me limpe a bicicleta – lhe disse.

– Sim, vou fazê-lo – respondeu Padre Kentenich – , mas não por que deve fazê-lo, mas sim porque, como homem livre, quero brindar-lhe esse serviço.

– … Não, você não necessita de fazer isso – respondeu finalmente, o chefe;

Enquanto escrevia os seus dados pessoais, Padre Kentenich perguntou-lhe porque no dia anterior lhe tinha gritado tanto: “Experimenta-se de tudo, para infundir medo…, foi a resposta. E a partir desse momento o chefe levou-o para o seu aposento (…!), contando-lhe toda sua vida.

Sem perda de tempo, Padre Kentenich começou a trabalhar em favor dos Sacerdotes. Apesar de estar proibida a atividade religiosa, dava, cada tarde, uma conferência espiritual, costume que manteria até o fim de sua prisão. “Devemos sincera gratidão ao Padre Kentenich – recorda Hans Carl, Diretor da Caritas, de Wuppertal, já que pela noite, fosse na rua do Bloco ou mais tarde no canto da sala de dormir, dava-nos pontos de meditação. Por muito tempo foi o único estímulo espiritual que recebemos”. Outra de suas ações foi distribuir secretamente, entre os seus coirmãos, a Sagrada Comunhão, que quase diariamente lhe traziam às escondidas.

De duas em duas semanas, os prisioneiros podiam escrever uma breve carta. No dia 22 de março, fazendo uso de dita faculdade, enviou seu primeiro cartão do meu novo lugar. “Utilizo por isso a primeira oportunidade para satisfazer esse desejo. Como tenho passado? São Paulo responderia: “Tudo posso naquele que me conforta”. Portanto, tenho passado bem. E no resto? Espiritualmente estou sempre com os meus, e espero servi-los mais que antes. Ao tornar-se realidade o segundo pecado original e ao decidir-se Cristo segundo o querer do Pai pelo sofrimento e pela morte, disse aquelas profundas palavras: “O grão de trigo deve primeiro ser lançado à terra e morrer; então dá muito fruto”. Assim penso eu também. E os Srs., toda a Família esforcem-se por levar a sério a entrega total. Para todos, sem exceção, saudações”. JK

Não há no prisioneiro queixa alguma. Nenhum estado de ânimo depressivo. As suas linhas deixam transparecer uma acentuada atitude de obediência a Deus Pai e de entrega heroica pelos seus.

Durante esses meses, por causa de uma grande falta de alimento, centenas de prisioneiros morreram no Campo de Concentração e “Mãe do pão”. Comprometiam-se a viver a atitude de “Inscriptio” (um total desprendimento de todo apego ao terreno e uma radical adesão à vontade de Deus) e a serem generosos, confiando na exortação evangélica: “Daí e dar-se-vos-á”.

Donde Padre Kentenich hauria forças para assim proceder? Ele estava profundamente arraigado no mundo e nos valores sobrenaturais.

 

MENSAGEM DO PADRE KENTENICH

Na conferência feita no Campo de Concentração de Dachau, Padre Kentenich testemunha à Família de Schoenstatt com ele ali reunida:

“Vejo a tarefa que me foi confiada por Deus um introduzir muitíssimos homens na dedicação total ao Deus eterno e infinito, em torná-los familiarizados com o mundo e a realidade do além. Ou, se quiserem: ajudar e apoiar a todos os homens, principalmente os filhos de nossa Família, para que, de modo pronunciado, se tornem homens divinizados. (…)

O espírito de Dachau é o espírito do perfeito arraigamento no mundo e na realidade sobrenatural. Este é o sentido mais profundo de nossa vida. Todos os demais arraigamentos são passageiros. Daqui a Mãe de Deus deve interceder continuamente, para que todos os filhos de Schoenstatt tenham este espírito de Dachau”. (16.07.1967)

  • Deus coloca também em meu caminho de vida o Padre Kentenich como um transparente seu, um caminho a me conduzir ao mundo sobrenatural.
  • A quem está vinculado o meu coração? Onde busco orientação e força nas horas duras e pesadas de minha vida?

 

PROPÓSITO

Nas horas difíceis, procurarei não me queixar e entregar tudo ao Capital de Graças.

 

ORAÇÃO

HINO DO INSTRUMENTO[1]

Mãe Três Vezes Admirável, dá que sejamos sempre teus instrumentos; com amor, hoje e sempre nos consagremos ao teu serviço. Usa-nos, como agrada a Deus, inteiramente para o teu Reino de Schoenstatt.

Toma nosso coração e nossa vontade, como tua inteira propriedade; ao teu aceno e à tua palavra eles se inclinam cegamente. A honra e a glória do instrumento é ser tua inteira propriedade, 

pronto a servir sem reservas a tua Obra de Schoenstatt. Envia-nos sofrimento, conduze-nos à luta, faze que conquistemos a plena vitória. Contra a astúcia e a fúria do demônio, dá-nos luz e  fortalece nosso ânimo.

Torna-nos semelhantes à tua imagem, como tu, passemos pela vida fortes e dignos, simples e bondosos, espalhando amor, paz e alegria. Em nós percorre o nosso tempo, prepara-o para Cristo.

Ainda que nos ameacem o mundo e o demônio e sobre nós se abatam tempestades, tu rompes vitoriosa todas as barreiras e nos concedes tua “onipotência”. Teu coração, porta do céu, seja para nós o refúgio seguro.

Se permanecermos fiéis, como teus instrumentos, jamais haveremos de perecer, tu nos ajudas, a cada instante, a produzir abundantes frutos. Pela tua mão, caminhemos alegres rumo ao eterno Schoenstatt. Amém.

(Rumo ao Céu, 606 – 611)

 

[1] Este hino encontra-se como um resumo no final do estudo intitulado “Piedade Mariana do Instrumento” que o Padre Kentenich ditou na primavera de 1944. Por arriscados empreendimentos, este estudo foi levado para fora do Campo de Concentração. Nele o Fundador caracterizou a linha central dos trinta anos de Schoenstatt, como Movimento, e dos vinte e cinco anos de fundação da União Apostólica em Hoerde (20 de agosto de 1919).

 

Novena ‘Livre em Algemas’ – 4º dia

4º DIA – LIVRE EM ALGEMAS

No dia 13 de janeiro de 1942, a Gestapo submeteu o Padre Kentenich a um novo interrogatório. Não tendo respondido como desejavam, ameaçaram-no enviá-lo para o Campo de Concentração.

No dia 16 de janeiro foi submetido a uma consulta para ver se estava apto para o Campo. O exame foi superficial, uma vez que o coração e os pulmões não foram examinados. Apesar de se estado de saúde precário, foi declarado apto. No dia seguinte chegou a Schoenstatt um breve bilhete escrito pelo próprio punho e letra do Padre Kentenich: “Acabo de ser examinado em relação ao Campo de Concentração. Resultado: apto para o Campo. Mas agora ninguém deve preocupar-se com isso”.

A partir deste momento, os dirigentes da Família começaram a mover todos os pauzinhos possíveis a fim de evitar que o Padre Kentenich fosse enviado para Dachau. Conseguiram que o médico que o atendia se manifestasse disposto a examiná-lo novamente, desde que o interessado o solicitasse por escrito. Neste caso, estava pronto a mudar o parecer anterior. Padre Kentenich encontrava-se perante uma decisão crucial. Devia assinar esse pedido ou não? O que queria Deus dele?

No dia 19 de janeiro escreve: “Pelas suas iniciativas com o médico, muito obrigado aos Srs. e a … Por favor, não me leve a mal, que eu não continue tecendo os fios que já teceram”. Foram horas e dias muito difíceis. “Lutar por essa decisão não foi fácil; posto que ir para Dachau significa ir para a morte certa, e separar-me de toda Família”. Padre Kentenich estava perante uma decisão crucial, pois não tinha clareza interior acerca daquilo que Deus lhe estava pedindo. Devia dar o passo de uma forma voluntária? Devia arriscar inteiramente a Família e toda a Obra de Schoenstatt? Se essa separação fosse eterna – pela sua morte – podia dar esse ponto de forma voluntária? Era essa, realmente,  a vontade de Deus?

“A intraquilidade provocada por essa questão não me abandonava – diria anos mais tarde; foram dias terríveis. Interiormente lutei e rezei”. A pergunta crucial era uma só: Que queria Deus? “Não tinha nenhuma visão, nenhum sonho, nem sequer uma iluminação especial. Na luta solitária contava apenas com a simples fé na Providência”.

Preocupava-o também que as Irmãs não chegassem a entender o seu modo de proceder, se recusasse a oferta do médico. Elas, que tanto tinham rezado e feito sacrifícios pela sua libertação, não tomariam essa recusa como uma ingratidão? “Horas seguidas andei para lá e para cá na minha cela – contará; lutava, rezava e não sabia o que fazer. Devia preencher o formulário com o pedido? Não podia fazê-lo”.

Padre Kentenich passou a noite de 19 para 20 de janeiro em oração, lutando no seu interior a fim de conhecer a vontade de Deus. No dia 20, durante a missa, teve a resposta, a certeza interior do que devia fazer: Não queria ser libertado por nenhum meio humano, mas pela entrega da Família de Deus, pelo esforço heroico em viver a “Inscriptio”. Nesse sentido escreveu umas linhas ao Pe. Menningen, seu fiel discípulo: “Entenda, por favor a resposta, baseado na fé, na realidade do sobrenatural e no entrelaçamento de destinos dos membros da nossa Família”.

Num primeiro momento a Família não compreendeu a sua atitude. Todos pediam-lhe para aceitar o oferecimento que era feito, assinando o pedido. Mas o Padre Kentenich tinha se decidido por aquilo que pensava ser a vontade de Deus. (“E agora vêm visitas e mais visitas à janela da torre, tornando-me mais pesada a decisão… Inclusive chegam agora cartas… torturam-me… Mas não posso fazer outra coisa”). Nessa hora grande, heroica da sua vida, não deixava de ser homem, de sentir, de sofrer. “Que difícil foi a decisão para mim! – contará mais tarde; foi um dos momentos mais difíceis da minha vida… Sentia as coisas em forma humana. Às vezes vinham-me as lágrimas aos olhos. Sentia-me contente por poder usar óculos”.

No dia 20 de janeiro, depois do almoço, chegou à cela do Padre Kentenich o capelão da prisão, Pe. Paulo Fechler, que se interessara pela questão. Disse-lhe mais uma vez, que o pedido para ser submetido a novo exame médico devia ser entregue até às 17h, que o último prazo expirava naquele horário.

O prazo estipulado se esgotou. Padre Kentenich não preencheu o formulário trazido. Com isso, sua decisão de aceitar o Campo de Concentração estava tomada. Uma nota do dia anterior enviada ao Pe. Menningen dizia: “Podes imaginar que da minha parte não seria ‘correto’ escapar ao Campo de Concentração? Lá me esperam muitos conhecidos. E, além disso, as quatro primeiras semanas foram piores que o Campo. Verás, há uma força superior em nossa vida que tudo leva para o melhor”.

 

MENSAGEM DO PADRE KENTENICH

“A condição para minha libertação foi a luta pela liberdade interna. Eu queria ser desprendido de mim mesmo, de tudo, também de todas as emoções nobres pessoais, conforme a vontade e a ação, se causasse alegria ao bom Deus. Esta é a verdadeira luta pela liberdade, a luta pela ‘Inscriptio’: tornar-se livre de todos os movimentos e emoções separadas de Deus, a fim de estar inteiramente livre para o Reino de Deus. Com prazer eu queria fazer e sacrificar tudo pela Família: liberdade, honra, vida, se com isto fosse garantida a liberdade interna da Família, o idealismo do amor e da aspiração por todos os tempos (…)”.

“Eu renunciei livremente à liberdade externa. Não queria que fossem empregados meios exteriores para conquistar minha liberdade externa, mas fosse empregado um só meio: que a Família se esforçasse para alcançar a liberdade interna (…). A razão, o coração e a vontade deviam libertar-se do pensar puramente natural…”

 

  • Muitas vezes, à semelhança do Padre Kentenich, encontro-me no escuro da fé e sou colocado perante decisões importantes. Sou capaz de renunciar à minha própria vontade para fazer a vontade de Deus?

 

PROÓSITO

  • Quero pedir a Deus Pai, no dia de hoje, que me liberte das algemas interiores (comodismo, egoísmo, impaciência, medo…) para que eu possa cumprir melhor a minha missão pessoal.

 

ORAÇÃO

“Recebe, Senhor, toda a minha liberdade, minha memória, minha inteligência, toda a minha vontade e todo o meu coração. Tudo o que tenho, de ti o recebi. Devolvo-o sem reservas. Faze de mim o que te aprouver. Só te peço uma coisa: dá-me tua graça, teu amor, tua fecundidade. Tua graça para que me incline alegremente diante de tua vontade; teu amor para que eu creia, saiba e me sinta amado como a pupila de teus olhos; tua fecundidade para que, em ti e em tua querida Mãe, me torne muito fecundo para a nossa obra comum. Assim serei muito rico e nada mais tenho a pedir”. (J.K)

(Forma ampliada do “Recebe Senhor” de Santo Inácio de Loiola)

Novena ‘Livre em Algemas’ – 3º dia

 

3º DIA – O ENLAÇAMENTO DE SORTE E DE VIDA

O que o Padre Kentenich, nas cartas que escreveu em sua cela de prisioneiro, transmitia à Família de Schoenstatt pelas palavras-chave “solidariedade” e “luta pela liberdade” tomou uma significação singular e familiar com surgimento do “Jardim de Maria”. Isto se deu por ocasião do Natal.

No dia 22 de dezembro celebrou-se no hospital de Coblença a festa do Natal dos funcionários e dos doentes. A Irmã Mariengard, fortemente impressionada pelo contraste entre esta celebração e a situação do Padre Kentenich na prisão, decidiu escrever uma carta ao Menino Jesus pedindo-lhe, como presente, a liberdade do Fundador e Pai Espiritual da Família de Schoenstatt: “Tu não poderias, quando desceres à terra na noite de Natal, enviar um Anjo ao pai?” O Anjo deveria preparar o caminho do Padre Kentenich para Schoenstatt, ao Santuário da Mãe de Deus, para que lá pudesse contemplar o milagre da Noite Santa. Mais tarde se falaria do regresso do Padre Kentenich da prisão como um “novo milagre da Noite Santa”.

A Superiora do Hospital São José, que encontrou a carta na caixa de correspondência, achou, não sem razão, que estas linhas haveriam de causar alegria ao Padre Kentenich. Por isso enviou-a com outros presentes à prisão. O Padre Kentenich não só se alegrou com a carta, mas, como já se dera muitas vezes com coisas aparentemente insignificantes, considerou-a um sinal da Divina Providência e escreveu uma resposta à Irmã, como se o remetente fosse o Menino Jesus. Fazendo um pequeno jogo de palavras com o nome da Irmã Mariengard, relacionou-o com Mariengarten (Jardim de Maria) e escreveu: “Minha pequena e querida Mariengard: realizarei o teu desejo quando o teu coração e o coração de toda a Família de se tornar um florescente jardim de Maria. Assim, o cumprimento de teu pedido, “o Milagre da Noite Santa”, está em tuas mãos, nas mãos dos filhos de Schoenstatt. Apressai-vos para que não seja tarde demais…”.

Neste breve texto o Padre Kentenich disse claramente: sua libertação será uma obra da graça divina; mas Deus a fez depender da vida e da aspiração de seus seguidores, do seu esforço para realizar o ideal da liberdade dos filhos de Deus como transparece na grande filha de Deus, a Mãe de Jesus. Padre Kentenich reveste esta condição na forma da antiga imagem do jardim de Maria, usada pelos místicos: “Quando o teu coração e o coração de toda a Família se tornarem um florescente jardim de Maria”.

Padre Kentenich proferiu aqui uma palavra que encontraria grande eco e que desencadearia um desenvolvimento profundo. “Jardim de Maria” tornou-se a senha, sob a qual a comunidade das Irmãs de Maria resumiria sua luta pela liberdade, como condição pela libertação do Fundador.

A partir do dia 26 de dezembro surge uma grande aspiração comum de todas as Irmãs de Maria do Hospital de Coblença pela libertação do Fundador. Assim o confirma o Padre Kentenich numa carta escrita da prisão: “Deus nos que a todos inteiramente para si, pelo heroísmo das virtudes teologais, assim como as deve corporificar o “novo homem”. Minha e nossa sorte estão enlaçadas indissoluvelmente, desde anos… Vós podeis crescer por mim e, desta vez, vosso crescimento. Certamente vosso crescimento é minha felicidade e meu orgulho. Somos inseparáveis em nossa vida e em nossa sorte. Isto também entra mais em consideração do que em outras oportunidades, que considereis minha pessoa como símbolo de toda a Família. Estou aqui para a Família. E minha liberdade é carta de libertação para toda a Família”. (Triunfo da Fidelidade, p. 54-55)

 

MENSAGEM DO PADRE KENTENICH

“Deveis esforçar-vos para conseguir o ideal da liberdade interna. Este será o preço de resgate para minha liberdade externa. É também o preço do êxito dos trabalhos de burilamento que Deus quer operar em mim… É ótimo se considerarmos tudo o que se efetuou em 1942, sob o ponto de vista da verdadeira liberdade fundamentada no Corpo Místico de Cristo e da união de nossa Família. Se somos ideados por Deus como Família, então meu relacionamento convosco e vosso relacionamento comigo é claramente conceituado”. (Triunfo da Fidelidade, p. 59)

 

  • Estou consciente de que, a partir do momento que selei a Aliança de Amor com a Mãe Três Vezes Admirável de Schoenstatt, no Santuário, eu fui incluído na missão do Fundador e passei a fazer parte de sua Família?
  • Como cultivo concretamente o meu relacionamento com ele?

 

PROPÓSITO

Quero hoje confiar minhas preocupações aos cuidados do Padre Kentenich e escrever as graças que ele me intercede.

 

ORAÇÃO

Em Cristo Jesus estamos estreitamente enlaçados, profundamente unidos em suas santas chagas. Ele é a Cabeça, nós, seus membros: esta é a mensagem que ninguém nos rouba.

Como seus membros, podemos obter méritos e conquistar direito à graça e à glória. Enquanto formos seus membros verdadeiros, o Pai nos concederá sua benevolência.

Se nos assemelharmos a Cristo no ser e na vida, podemos dar-nos mutuamente as mãos; a piedade de cada um reverte em bênçãos para todos, pelo sangue de Jesus.

Assim, o amor à Família nos impele a refrear seriamente as más paixões e a aspirar à mais alta santidade, com vigoroso espírito sacrifical e singela alegria.

 A própria santificação se torna amor à Família, ajudando-a a superar com alegria toda a escuridão; atrai sobre ela o olhar complacente do Pai, é sua constante proteção e seu amparo seguro.

Esta santificação é parte do apostolado e ajuda a inflamar o zelo pelas almas. É um vínculo forte e indestrutível que nos mantém unidos

(Rumo ao Céu – 487 a 492)