8º DIA  – SEMPRE OUSADO

Neste Dia da Aliança, seguimos nossa preparação para o dia 20 de janeiro. Estamos acompanhando o caminho de ‘liberdade interior’ do Padre José Kentenich no seu tempo de prisineiro no Campo de Concentração de Dachau.

No entanto, Padre Kentenich ia amadurecendo uma mudança de estratégica. Desde sua chegada ao Campo de Concentração tinha se dedicado fundamentalmente à assistência dos coirmãos sacerdotes, procurando formar com eles uma comunidade. De quinze em quinze dias escrevia regularmente para Schoenstatt aproveitando a oportunidade concedida aos prisioneiros. Mas, desde o final de outubro de 1942, soube que as suas cartas não chegavam mais a Schoenstatt. O que tinha acontecido?

Nos começos de novembro, ao revistar uma das casas de Schoenstatt, a Gestapo encontrou uma coleção de cartas do Padre Kentenich escritas em Dachau. Soltas, lidas separadamente, não chamavam demasiada atenção. Mas colecionadas e policopiadas, deviam despertar, indubitavelmente, o interesse da Gestapo. As suas cartas de novembro foram requisitadas pela censura de Dachau e enviada à Gestapo de Coblença. O mesmo aconteceu com a que escreveu para o Ano Novo.

Padre Kentenich decidiu não escrever mais para Schoenstatt por vias legais. Que fazer agora? Renunciar ao contato epistolar? Decidir-se pela via ilegal? Ponderando essas opções. Padre Kentenich preparou-se especialmente para o dia 25 de março de 1943, festa da Anunciação do Senhor, rezando uma novena. Neste dia tomou duas decisões de Transcendência: 1) Daí em diante dedicar-se-ia totalmente à construção da Obra de Schoenstatt no Campo de Concentração; 2) Buscaria, conscientemente, canais através dos quais pudesse retomar, com mais força, a condução da Família fora de Dachau.

A partir de sua decisão de 25 de março, sentiu que Deus não lhe pedia trabalhar para o Campo de Concentração, mas sim para a sua Família de Schoenstatt. providencialmente aconteceu que o chefe de grupo de trabalho, Jakob Koch, o protegia e que o capelão Desbach e um pároco da diocese de Tréves, Ludwig Bettendorf, podiam servi-lo como secretários.

Padre Kentenich, que não escrevia uma só carta desde o mês de janeiro, começou a ditar. Nos meses seguintes ditou centenas, milhares de cartas. Isto era brincar continuamente com a morte. Em Dachau não se podia ter nenhum papel que não estivesse marcado com um carimbo. Um exemplo: em determinada ocasião, um trabalhador tentou escrever algumas coisas simples para sua casa, por vias legais. Foi descoberto e enviado para um transporte da morte.

O problema do Padre Kentenich era como receber resposta de fora. Encontrou a solução seguinte: gente da sua confiança trabalhava no correio do Campo. Todo pacote que chegava devia ser controlado. Mas o que chegava em pequenos pacotes, ou “por expresso”, não estava submetido a essa formalidade. Padre Kentenich  avisou em seguida para fora como deviam proceder. Dali em diante começou a receber, de 14 em 14 dias, um pequeno pacote… cheio de cartas. Isto era perigoso.

Mas nem sempre Padre Kentenich recebia “Pacotes pequenos”. Em março de 1943, um dia próximo da Páscoa, recebeu um pacote enorme que continha uma grande torta. Pe. Fischer disse-lhe que devia observar pessoalmente como era. “Não vais comer da torta – disse-lhe brincando com o Padre Kentenich – mas apenas prová-la”. E enviou-a a um deputado prisioneiro, de nome Joss. Pouco depois o agraciado trazia-lhe de volta. Por fora era uma torta lindíssima…, mas o seu conteúdo era bem outro: Cartas e mais cartas! Padre Kentenich teve que lê-las a toda velocidade. E, em vez de responder uma a uma, lembrou-se de responder com um trabalho às questões fundamentais que lhe punham. Começou a ditar imediatamente, escolhendo para isso o gênero poético, a fim de despistar os carcereiros em caso de ser descoberto nesta atividade: se os seus guardas caíssem ocasionalmente sobre aqueles escritos pensariam certamente – era a reflexão acertada do Padre Kentenich – que o sacerdote prisioneiro não andava muito bem da cabeça ou que encontrara alivio para suas desditas naquele lírico desabafo.

Ao concluí-lo, em janeiro de 1944, alcançava um total de 5.870 estrofes. Ali eram abordadas questões teológicas. Filosóficas. Pedagógicas. Ascéticas e pastorais, de interesse para as superioras das Irmãs de Maria. Chamou-lhe “Espelho do Pastor”. Na primavera quer dizer nos meses de abril a junho, ditou: “Piedade Instrumental Mariana”, obra fundamental da espiritualidade schoenstattiana. Assistia-o como secretário o capelão Dresbach, o qual recorda que o Padre Kentenich “ditava com muita fluidez, sem sequer ter por escrito o esquema do tema em questão”. O trabalho concluía com o “Cântico do Instrumento”, de cujas estrofes dizia assim:

“Ainda que nos ameacem o mundo e o demônio, ou tempestades caiam sobre nós, tu vences todos os perigos e nos concedes o teu imenso poder. O teu coração, porta do céu, é sempre o nosso seguro amparo”.

 

No Padre Kentenich era visível seu espírito de ousadia e vitoriosidade. Trabalhava, incansavelmente, em seus escritos, mas também na formação espiritual dos seus seguidores.

Pelos fins de maio de 1944, tinham se formado no Campo de Concentração vários grupos schoenstattianos de sacerdotes, divididos em dois círculos: dois grupos de dirigentes (“Círculo da Mãe” e o “Círculo do Coração”), e cinco grupos de bases. Integravam-nos sacerdotes da Polônia, Tchecoslováquia, Itália, França, Bélgica, Holanda e Alemanha, unidos pelo comum amor à Santíssima Virgem e a vontade de ser instrumentos seus a serviço da Igreja. O atendimento desses grupos significou para o Padre Kentenich um trabalho e esforço suplementares. Estando proibida em Dachau qualquer reunião organizada, normalmente nunca falava a mais de um grupo de cada vez. Daí que muitas tardes tivessem uma, duas, três – e às vezes quatro ou cinco – reuniões de grupo.

Era outono, tempo de chuvas. As reuniões faziam-se, regra geral, ao ar livre. Era frequente ver o Padre Kentenich com as suas roupas totalmente molhadas, de uma reunião para outra. Nunca se deixou amedrontar pelo mau tempo, mantendo essas conferências do entardecer até a sua libertação, em abril de 1945. Fomentou, além disso, entre os seus coirmãos, o costume de fazer uma renovação espiritual no primeiro domingo de cada mês.

O trabalho com sacerdotes alcançou um momento culminante no dia 18 de outubro de 1944, quando completava 30 anos que Schoenstatt tinha sido fundado. Era um dia de chuva. “Até agora Schoenstatt era uma Obra limitada; hoje ultrapassa esse limite e torna-se internacional”, disse o Padre Kentenich na sua prática aos sacerdotes que representavam diferentes nações.

Como tinha chegado a dar o passo audacioso de fundar uma “internacional” no Campo de Concentração? A resposta é simples: através do mesmo radar que o tinha guiado, e guiaria, ao longo de sua vida: “a Fé Prática na Divina Providência”. Sentia-se fundador de uma obra de dimensões universais; ali havia sacerdotes de diversos países… Deus fala através das circunstâncias.

Dois meses mais tarde, na conferência de 8 de dezembro, esclarecia estes conceitos. Recordava uma afirmação que fazia do apóstolo: “Cor Pauli, Cor Mundi”, quer dizer, o coração de Paulo abarca com o seu amor o mundo inteiro. O nosso coração, que tantas vezes se estreita pelo egoísmo, devia ser como o de Maria, como o de Cristo, como o de Deus: “O nosso coração pertence a todos os homens, a todas as nações, seja qual for o seu nome ou a sua história”.

Numa oração que tinha composto fica consignada, claramente, a sua estratégia internacional:

“De entre todas as nações que aqui padecem escolhe os melhores para entender o teu reino; toma-os como instrumentos em tuas mãos para voltar para o Senhor os destinos dos povos. Em todas as partes torna fecunda a semente de Schoenstatt para a tua glória e para honra e louvor da Santíssima Trindade”.

 

MENSAGEM DO PADRE KENTENICH

“O bom Deus me concedeu a graça de me decidir interiormente, de livre vontade para tudo. Mas também de levar a efeito estas decisões nas situações mais difíceis…

Minha atitude era: eu tenho de cuidar da Família e também arriscar alguma coisa…

O homem do além é o que procura decidir-se ousadamente e agir, estando pronto também a fazer o contrário daquilo que se costuma fazer, em geral. Minha vida de prisão e de Dachau foi uma única e grande arriscada até o fim. (…)

Eu não conhecia o mínimo medo. Isto é bem compreensível: eu tinha doado tudo! Tal atitude requeria uma certa ousadia. O desprendimento interno das coisas faz-nos encontrar a medida certa, que não demonstra o mínimo medo. Eu também não sentia medo no coração. Eu pensei: tudo o que acontece no Campo de Concentração é asneira. Não é o central das coisas. O central é o desprendimento total de si mesmo e o abandono radical a Deus. Isto perfaz a personalidade livre (…)

De onde provém esta vitoriosidade? A fonte é a consciência de instrumento e o desapego de tudo. Depois que fui desapegado de tudo: pessoas, êxito, existência da Família, nada mais ficou do que a convicção: agora vamos ao encontro duma época de maravilhas, de magnificências divinas, como nunca ainda as experimentamos” (Triunfo da Fidelidade).

 

  • Padre Kentenich nunca sentiu medo porque colocou toda a sua vida nas mãos da Mãe de Deus e considerava-se apenas como seu instrumento.
  • Quando sinto medo, aflição, angústia, não deveria renovar a minha Aliança de Amor com mais confiança?

 

PROPÓSITO

Hoje quero agradecer ao bom Deus a graça da aliança e renová-la, através da Pequena Consagração, com grande confiança.

 

ORAÇÃO

EMPUNHA O CETRO[1]

Empunha o cetro, Mãe, protege tua terra de Schoenstatt, ali só tu és Rainha; põe em fuga todos os inimigos.

Cria ali teu paraíso, mantém o dragão algemado. Mulher de sol, surge radiante, eleva-te às alturas meridianas.

Constrói, a partir daqui, um mundo que agrade ao Pai, como outrora Jesus pediu em ardente oração.[2]

Nele reine sempre amor, verdade e justiça, unidade que não massifica, nem leva ao espírito de escravidão.

Manifesta teu poder na escura noite de tempestade; dá que o mundo veja teu atuar e te contemple maravilhado,

que te aclame com amor e se confesse por teu Reino; nele tua bandeira avance com vigor e subjugue vitoriosamente todos os inimigos.

Schoenstatt permaneça teu lugar predileto, baluarte do espírito apostólico, guia que conduz à luta sagrada, fonte de santidade na vida diária;

fogo ardente que flameja por Cristo, espalhando centelhas de luz, até que o mundo, como mar de chamas, arda para a glória da Santíssima Trindade. Amém.

 

[1] Em Dachau os schoenstattianos estavam muito preocupados com a notícia do avanço incontido dos aliados, na região de Coblença, cidade situada nas proximidades de Schoenstatt. O Padre Kentenich escreveu esta oração para uma novena em preparação ao dia 25 de março de 1945, festa da Anunciação. A intenção particular dessa novena era a libertação de Schoenstatt e a preservação do Santuário Original. Nesse mesmo dia, Schoenstatt caiu nas mãos das tropas americanas: não houve mortos, nem feridos, nem ruínas. A oração foi dedicada aos sacerdotes do “Círculo da Mão” (também chamado “Manus Mariae”) e do “Círculo do Coração”.

[2] Refere-se à oração sacerdotal de Jesus na última ceia. Aí ele suplica: “A fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, em mim e eu em ti, que eles estejam em nós…” (Jo 17,21).

 

Foto: detalhe da capela ‘Agonia de Cristo’ no Campo de Concentração de Dachau. Fonte: wikipedia.org