
4º DIA – LIVRE EM ALGEMAS
No dia 13 de janeiro de 1942, a Gestapo submeteu o Padre Kentenich a um novo interrogatório. Não tendo respondido como desejavam, ameaçaram-no enviá-lo para o Campo de Concentração.
No dia 16 de janeiro foi submetido a uma consulta para ver se estava apto para o Campo. O exame foi superficial, uma vez que o coração e os pulmões não foram examinados. Apesar de se estado de saúde precário, foi declarado apto. No dia seguinte chegou a Schoenstatt um breve bilhete escrito pelo próprio punho e letra do Padre Kentenich: “Acabo de ser examinado em relação ao Campo de Concentração. Resultado: apto para o Campo. Mas agora ninguém deve preocupar-se com isso”.
A partir deste momento, os dirigentes da Família começaram a mover todos os pauzinhos possíveis a fim de evitar que o Padre Kentenich fosse enviado para Dachau. Conseguiram que o médico que o atendia se manifestasse disposto a examiná-lo novamente, desde que o interessado o solicitasse por escrito. Neste caso, estava pronto a mudar o parecer anterior. Padre Kentenich encontrava-se perante uma decisão crucial. Devia assinar esse pedido ou não? O que queria Deus dele?
No dia 19 de janeiro escreve: “Pelas suas iniciativas com o médico, muito obrigado aos Srs. e a … Por favor, não me leve a mal, que eu não continue tecendo os fios que já teceram”. Foram horas e dias muito difíceis. “Lutar por essa decisão não foi fácil; posto que ir para Dachau significa ir para a morte certa, e separar-me de toda Família”. Padre Kentenich estava perante uma decisão crucial, pois não tinha clareza interior acerca daquilo que Deus lhe estava pedindo. Devia dar o passo de uma forma voluntária? Devia arriscar inteiramente a Família e toda a Obra de Schoenstatt? Se essa separação fosse eterna – pela sua morte – podia dar esse ponto de forma voluntária? Era essa, realmente, a vontade de Deus?
“A intraquilidade provocada por essa questão não me abandonava – diria anos mais tarde; foram dias terríveis. Interiormente lutei e rezei”. A pergunta crucial era uma só: Que queria Deus? “Não tinha nenhuma visão, nenhum sonho, nem sequer uma iluminação especial. Na luta solitária contava apenas com a simples fé na Providência”.
Preocupava-o também que as Irmãs não chegassem a entender o seu modo de proceder, se recusasse a oferta do médico. Elas, que tanto tinham rezado e feito sacrifícios pela sua libertação, não tomariam essa recusa como uma ingratidão? “Horas seguidas andei para lá e para cá na minha cela – contará; lutava, rezava e não sabia o que fazer. Devia preencher o formulário com o pedido? Não podia fazê-lo”.
Padre Kentenich passou a noite de 19 para 20 de janeiro em oração, lutando no seu interior a fim de conhecer a vontade de Deus. No dia 20, durante a missa, teve a resposta, a certeza interior do que devia fazer: Não queria ser libertado por nenhum meio humano, mas pela entrega da Família de Deus, pelo esforço heroico em viver a “Inscriptio”. Nesse sentido escreveu umas linhas ao Pe. Menningen, seu fiel discípulo: “Entenda, por favor a resposta, baseado na fé, na realidade do sobrenatural e no entrelaçamento de destinos dos membros da nossa Família”.
Num primeiro momento a Família não compreendeu a sua atitude. Todos pediam-lhe para aceitar o oferecimento que era feito, assinando o pedido. Mas o Padre Kentenich tinha se decidido por aquilo que pensava ser a vontade de Deus. (“E agora vêm visitas e mais visitas à janela da torre, tornando-me mais pesada a decisão… Inclusive chegam agora cartas… torturam-me… Mas não posso fazer outra coisa”). Nessa hora grande, heroica da sua vida, não deixava de ser homem, de sentir, de sofrer. “Que difícil foi a decisão para mim! – contará mais tarde; foi um dos momentos mais difíceis da minha vida… Sentia as coisas em forma humana. Às vezes vinham-me as lágrimas aos olhos. Sentia-me contente por poder usar óculos”.
No dia 20 de janeiro, depois do almoço, chegou à cela do Padre Kentenich o capelão da prisão, Pe. Paulo Fechler, que se interessara pela questão. Disse-lhe mais uma vez, que o pedido para ser submetido a novo exame médico devia ser entregue até às 17h, que o último prazo expirava naquele horário.
O prazo estipulado se esgotou. Padre Kentenich não preencheu o formulário trazido. Com isso, sua decisão de aceitar o Campo de Concentração estava tomada. Uma nota do dia anterior enviada ao Pe. Menningen dizia: “Podes imaginar que da minha parte não seria ‘correto’ escapar ao Campo de Concentração? Lá me esperam muitos conhecidos. E, além disso, as quatro primeiras semanas foram piores que o Campo. Verás, há uma força superior em nossa vida que tudo leva para o melhor”.
MENSAGEM DO PADRE KENTENICH
“A condição para minha libertação foi a luta pela liberdade interna. Eu queria ser desprendido de mim mesmo, de tudo, também de todas as emoções nobres pessoais, conforme a vontade e a ação, se causasse alegria ao bom Deus. Esta é a verdadeira luta pela liberdade, a luta pela ‘Inscriptio’: tornar-se livre de todos os movimentos e emoções separadas de Deus, a fim de estar inteiramente livre para o Reino de Deus. Com prazer eu queria fazer e sacrificar tudo pela Família: liberdade, honra, vida, se com isto fosse garantida a liberdade interna da Família, o idealismo do amor e da aspiração por todos os tempos (…)”.
“Eu renunciei livremente à liberdade externa. Não queria que fossem empregados meios exteriores para conquistar minha liberdade externa, mas fosse empregado um só meio: que a Família se esforçasse para alcançar a liberdade interna (…). A razão, o coração e a vontade deviam libertar-se do pensar puramente natural…”
- Muitas vezes, à semelhança do Padre Kentenich, encontro-me no escuro da fé e sou colocado perante decisões importantes. Sou capaz de renunciar à minha própria vontade para fazer a vontade de Deus?
PROÓSITO
- Quero pedir a Deus Pai, no dia de hoje, que me liberte das algemas interiores (comodismo, egoísmo, impaciência, medo…) para que eu possa cumprir melhor a minha missão pessoal.
ORAÇÃO
“Recebe, Senhor, toda a minha liberdade, minha memória, minha inteligência, toda a minha vontade e todo o meu coração. Tudo o que tenho, de ti o recebi. Devolvo-o sem reservas. Faze de mim o que te aprouver. Só te peço uma coisa: dá-me tua graça, teu amor, tua fecundidade. Tua graça para que me incline alegremente diante de tua vontade; teu amor para que eu creia, saiba e me sinta amado como a pupila de teus olhos; tua fecundidade para que, em ti e em tua querida Mãe, me torne muito fecundo para a nossa obra comum. Assim serei muito rico e nada mais tenho a pedir”. (J.K)
(Forma ampliada do “Recebe Senhor” de Santo Inácio de Loiola)
