
6º DIA – DACHAU: CÉU OU INFERNO?
Dachau. Um pequeno povoado no sul da Alemanha, não longe da cidade de Munique. Um nome famoso, tristemente célebre no mundo. Não pelo povoadozinho, uns dos tantos em terras da Baviera, mas sim por ser um lugar sinistro: o Campo de Concentração que, a partir de 1933, ali construiu o nacional-socialismo. Num terreno cercado por um grande fosso, com arame farpado, eletrificado, com torres de controle, além da Polícia da SS., com cães amestrados, tinha se levantado 34 barracas, com capacidade para albergar um total de 5.000 prisioneiros (em março de 1942, quando chegou o Padre Kentenich, empilhavam-se ali uns 12.000, cifra que posteriormente elevar-se-ia ainda mais). chamaram-no “o inferno de Dachau”. Ironicamente, o lema do Campo prometia liberdade: “Arbeit macht frei” (“O trabalho torna-nos livres”) dizia um letreiro forjado na grade de entrada.
A verdade era outra: os seus habitantes estavam condenados a viver em condições primitivas, brutais, indignas de um ser humano. “Os Srs. não têm nenhum direito, o povo alemão expulsou-os” – gritava aos recém chegados, na sua primeira instrução, o chefe do Campo. “Os Srs. possuem um só direito, o de serem maltratados”.
A comida era tão escassa que, alimentando-se só com uma ração cotidiana, o prisioneiro praticamente devia morrer de fome. Pela manhã recebia um litro de café, na realidade quase pura água; ao meio dia, um pouco de verdura na “sopa”, que não continha quase nada de gordura; e, à noite, um terço ou um quinto de um pão. Os que podiam, revistavam as panelas com a esperança de encontrar alguma batata ou restos que tivessem ficado; levá-las à cozinha para serem lavadas, era um privilégio. Pela total carência de vitaminas, em muitos prisioneiros produziam-se feridas que não chegavam a cicatrizar. Dachau não só se chamava: era, na realidade, “um inferno”.
Houve momentos de fome tremenda: em 1942, não eram seres humanos, mas sim cadáveres ambulantes que se arrastavam pesadamente pelo Campo de Concentração. E, em 1944, em pleno inverno, quando se declararam diversas epidemias, muitos prisioneiros não eram mais que peles e ossos. Muitas vezes viam-se estendidos pelas ruas ou caminhando apenas, apoiando-se uns nos outros.
Os que chegavam a Dachau tinham sido arrancados de seus lugares, de sua terra natal. Ali esperava-os uma vida totalmente primitiva. No Campo de Concentração não havia quase nada de verde nem flores; apenas se erguia uma fileira de árvores. À sua chegada, os prisioneiros eram instalados na barraca de entrada. No pátio principal eram levados daqui para ali como se fossem escravos. À maneira dos antigos povos pagãos, eram-lhe colocadas cadeias, enganchando-os a carros que deviam puxar, enquanto os da SS., em cima dos carros, davam-lhe chicotadas. Em tudo isso não havia nem casualidade nem improvisação. Agia-se de propósito, com a finalidade de quebrar a personalidade do prisioneiro; fazia-se isto para destruir o que de nobre houvesse no seu caráter. A preparação dos famosos “transportes” – uma viagem sem retorno às câmaras de gás – assemelhava-se a um mercado de escravos.
Os prisioneiros, muitas vezes nus, deviam desfilar diante dos homens da SS.. que escolhiam os que ainda eram capazes de trabalhar; o resto era condenado à morte.
Dachau era “um inferno”. Ali se fizeram experiências com os prisioneiros, como se fossem cobaias de laboratório. Por exemplo, atiravam-nos à água gelada, para ver até onde podiam resistir com vida. Injetavam-se lhes bactérias e outros bacilos, a fim de comprovar a sua reação. Faziam também experiência com a malária. No pavilhão dos doentes cometiam-se atrocidades: homens sem estudos de medicina realizavam operações. Assassinavam. Arrancavam os dentes de ouro dos prisioneiros. E que dizer dos castigos refinadamente cruéis? Por exemplo Sachsengrss: o prisioneiro deveria colocar os braços exatamente atrás das costas, pôr-se de cócoras e saltar. Nessa posição era quase impossível respirar: aguentava um, dói minutos, e logo não podia mais. Então, com frequência, era assassinado. Também era comum tê-los de pé durante horas, às vezes durante todo o dia. (Foi de grande ajuda ao Padre Kentenich o fato de estar acostumado a isso, pois costumava dar as suas conferências de pé, nunca sentado). Outro castigo: o prisioneiro era colocado sobre uma cadeira ou uma escada; as mãos eram atadas com uma corda, que era pendurada numa árvore, retiravam a cadeira ou a escada; o prisioneiro ficava pendurado, no ar, horas seguidas.
Dachau, céu ou inferno? Em meio a esta “cidade de pagãos, de louco e de morte”, Padre Kentenich compõe o “Hino de Minha Terra”, com seis estrofes e o estribilho.
Fala do lugar de Schoenstatt como de uma terra “cálida e familiar que o Amor Eterno preparou para si”; de uma terra “abundante e pura, reflexo da Beleza Eterna”; de uma terra que é “imagem fiel do céu, esse reino de liberdade tão ardentemente anelado”, de uma terra “repassada de alegria, onde os corações vivem num repouso pela posse dos bens eternos”; de uma terra “onde reinam a veracidade, a justiça e o amor”; de uma terra “preparada para o combate, acostumada a vencer em todas as batalhas”. Cada estrofe começa em forma de pergunta: “Conheces tu aquela terra…?” E o coro responde: “Eu conheço essa maravilhosa terra… onde reina Nossa Senhora Três Vezes Admirável… É a minha terra de Schoenstatt!”
O Pai e Fundador da Família de Schoenstatt, com espírito de fé, ousadia e vitoriosidade, vence as torturas desumanas da “cidade de pagãos, de loucos e de morte”.
MENSAGEM DO PADRE KENTENICH
“Os dados foram lançados… Para mim o caminho atual é, sem dúvida, o melhor; senão Deus não me levaria por ele. Para mim, vale esta frase: ‘Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos’. Deste modo dirijo e fecundo a Família. Em espírito estou sempre convosco: passaremos a prova de fogo e sairemos depois vitoriosamente do Campo de Concentração. Mater habebit curam! (A Mãe terá o cuidado!) Até logo!”
- Na minha vida também encontro momentos de “Dachau”, quando se fere a injustiça, a falta de liberdade, a perda de direitos, a renúncia do mais querido, a perda de bens, de pessoas, a crise econômica, a falta de dinheiro…
- O que me diz então o exemplo do Padre Kentenich?
PRPÓSITO
Hoje quero renunciar alguma coisa de que gosto (comida, programa de TV…) para partilhar da sorte dos que não têm.
ORAÇÃO
ORAÇÃO NA AFLIÇÃO[1]
Mãe, acolhe-nos solícita sob teu manto, que nosso viver seja sempre no céu. Protege-nos da fome, de epidemias e incêndios,[2] a nós que, em grande aflição, recorremos a ti.
Dize a teu Filho, como outrora aqui na terra, quando ajudou em aflições e dificuldades: “Senhor, eles não têm mais vinho, nem alimento”, então, por certo, Ele nos atenderá.
Em união com o Filho, a ti foi concedido restituir-nos a vida da graça que fora perdida, afastar de nós muitas aflições terrenas, suavizá-las e convertê-las em meio de salvação.
Faze desvelar-se ricamente teu coração materno, onde irrompem, violentas, as potências infernais e manifesta em plenitude teu poder, tua bondade, como Colaboradora de Cristo.
Como teu Filho, quando ainda estava aqui na terra, saciava a fome, consolava e curava os doentes, passa silenciosamente, com Ele, em nosso meio, abençoando e concedendo-nos a onipotência de teu braço maternal.
Manifesta-te ao mundo inteiro como o Grande Sinal, ante o qual se afastam a astúcia do demônio e as aflições terrenas; em ti, os povos encontrem abrigo e redenção e alegres te proclamem Medianeira da salvação.
Nossa aflição tornou-se tão extrema, que sem o teu auxílio perecemos; só tu podes salvar-nos da ruína, vem e vê, como a ti acorremos suplicantes.
Com teu Filho, sê para nós libertadora da fúria do inferno e da tempestade dos tempos e com gratidão, te bendiremos eternamente, como a grande Mãe dos povos.
Corajosos, queremos propagar o teu nome e conduzir todos ao teu Santuário, para que, plenos de júbilo e amor, aqui na terra e lá no céu, contigo bendigam a Deus Trino. Amém.
(Rumo ao Céi, 501 a 502, 505 a 511)
[1] Em fins de dezembro de 1944, o Fundador de Schoenstatt escreveu um regulamento para as refeições da comunidade dos padres schoenstattianos em Dachau. Nesse regulamento diz que, para pôr a mesa em comum em dependência de Deus, se reze diariamente esta oração escrita em 7 de dezembro de 1944, véspera da festa da Imaculada. O pano de fundo é a situação de fome dessa época e o desejo de criar uma comunidade nobre e sobrenatural na hora das refeições. Também preocupa o Padre Kentenich distribuir bem os pacotes de comestíveis que a Família de Schoenstatt lhe enviava, para aliviar a fome dos prisioneiros.
[2] No texto original: “Protege de bombas, de granadas e incêndios”. Mais tarde rezava-se:” Protege de epidemias, bombas e incêndios”.
