
7º DIA – CONSELHEIRO E FUNDADOR
Logo nos primeiros dias de Dachau o Padre Kentenich colocou-se a serviço de seus coirmãos que com ele se encontravam no bloco de entrada. Enquanto o prisioneiro estava no bloco de entrada era submetido a uma espécie de quarentena. Assim, por exemplo, os padres que estavam no bloco de entrada não podiam participar das missas que eram celebradas diariamente na capela do bloco de sacerdotes alemães. Para que seus coirmãos não ficassem sem alimento espiritual nesta difícil situação, o Padre Kentenich todas as noites dava uma pequena conferência a todos os que quisessem participar. Estas atividades religiosas eram rigorosamente proibidas pelo regulamento do Campo. Mas o Padre Kentenich, logo após sua chegada, conquistara a confiança e o respeito do chefe do bloco de entrada, Hugo Guttmann, assim como a de chefe de alojamentos Willy Bader, que não só permitiam, mas até protegiam as pequenas funções religiosas, embora eles, como comunista e socialista respectivamente, fossem ateus.
As condições de vida nos Campos de Concentração nazistas não eram nada boas em qualquer época do ano. Mas havia anos e meses em que se tornavam particularmente difíceis. No começo de 1942, na ocasião que o Padre Kentenich chegou ao Campo de Concentração, iniciou-se um destes períodos. Os prisioneiros do Campo de Concentração recebiam pessoalmente tão pouco alimento que vivam continuamente no limite mínimo para a subsistência. e a partir de março de 1942 piorou sensivelmente a alimentação dos prisioneiros de Dachau. Já em condições “normais”, a vida no Campo de Concentração era uma prova de resistência. Assim se compreende que uma situação consideravelmente mais grave, como aconteceu em meadas de 1942, foi um verdadeiro desafio.
Nesta situação, em que se tinha a morte sempre diante de si, o Padre Kentenich procurou ajudar seus coirmãos e os companheiros de prisão muitas vezes esquecendo-se de si próprio. Com a maior naturalidade dava de presente os alimentos que lhe eram trazidos ocultamente. E dava não só o que recebia de presente, mas renunciava até mesmo a uma parte de sua ração normal para ajudar a outros.
Como suas relações de amizade depois de poucas semanas no Campo já eram bastante vastas, em vários casos pôde ajudar os companheiros de prisão que já estavam destinados ao transporte para as câmaras de gás, conseguindo que fossem retirados da lista fatal, como foi o caso do conhecido professor de teologia da Universidade de Lovaina na Bélgica, o jesuíta Pe. Léon de Coninck. Quando, certa vez, apesar de seus esforços não conseguiu livrar da morte um sem companheiro, rompeu em pranto, como narra um prisioneiro.
Mas, acima de tudo, Padre Kentenich esforçava-se por fortalecer espiritualmente seus coirmãos sacerdotes. Em suas conferências, que não foram interrompidas mesmo nos meses mais difíceis, mas até estendidas ao horário e local do comando de trabalho, procurava revelar-lhes a vontade de Deus através da situação reinante. Apresentava-lhes o ideal do homem sobrenatural e singelo, do homem cujo “viver está no céu” e que vive da confiança total na realidade de Deus como Pai. Para que seus coirmãos pudessem mais facilmente meditar por si mesmos estes pensamentos fundamentais, resumiu-os no lema: “Nós, sacerdotes do Campo de Concentração de Dachau, vivendo nas condições mais primitivas, não querendo reagir de modo primitivo, mas de modo singelo e autêntico e, se for a vontade de Deus, ou morrer heroicamente no Campo como personalidades sacerdotais fortes ou, mais tarde, como sacerdotes amadurecidos, continuar a trabalhar com zelo e fecundidade para o reino de Deus”. Animava igualmente seus coirmãos a se entregarem a Mãe de Deus e a contarem com o seu poderoso auxílio. Realmente, o Padre Kentenich tinha em mente que o tempo que os sacerdotes deviam passar em Dachau, de acordo com a disposição da Divina Providência, devia ser aproveitado como uma espécie de segundo seminário para continuarem a formar-se como sacerdotes e pastores de almas. Isto lhes possibilitaria aproveitar a experiência do Campo de Concentração para, na nova situação da Igreja e dos fiéis do após guerra, desenvolver um apostolado fecundo. Nas horas duras do Campo ele pôde, assim, ajudar e aconselhar muitos sacerdotes, e mesmo o chefe de polícia.
Ele nos conta: “De todo o Campo as pessoas vêm falar comigo… Isto desenrolou-se de tal maneira que eu tinha minhas horas de audiência. Eu ficava sentado no meu cantinho, escutando os desabafos. Tudo se realizou com extremo respeito”. (Triunfo da fidelidade)
Entretanto, Padre Kentenich dedicava seu tempo livre não só a seus irmãos sacerdotes. No decorrer dos meses de abril e maio teve a oportunidade de entrar em contato mais íntimo com dois leigos católicos do Campo de Concentração: o doutor em ciências sociais e político alemão Frederico Kühr, e o jurista austríaco, Dr. Eduardo Pesendorfer. Ambos trabalhavam na enfermaria do Campo; o Dr. Pesendorfer, como enfermeiro-chefe na seção cirúrgica, e o Dr. Kühr, no escritório. Com o tempo, Padre Kentenich se convenceu de que estes homens lhe tinham sido enviados pela Divina Providência para realizar dois planos que já há muito tempo tinha em mente: a fundação de duas novas comunidades na Obra de Schoenstatt: o Instituto dos Irmãos de Maria e o Instituto das Famílias de Schoenstatt. O Dr. Pesendorfer declarou-se disposto para a fundação do Instituto dos Irmãos e o Dr. Kühr para o Instituto das Famílias, fazendo, porém, uma ressalva, pois sua esposa no momento residia no Brasil, em Rolândia, numa fazenda de café de sua propriedade. É de se admirar o zelo e o espírito de sacrifício com que Padre Kentenich e seus dois candidatos dedicaram tempo e força para a consecução da finalidade a que se tinham proposto. A 16 de julho de 1942, dia comemorativo de Nossa Senhora do Carmo, a formação estava a tal ponto adiantada, que se pôde realizar a admissão e abertura do noviciado.
Durante os anos de prisioneiro ele não cessa de emprenhar tudo para edificar a Obra de Schoenstatt e uni-la como Família, onde se vive o amor mútuo, o espírito de solidariedade.
MENSAGEM DO PADRE KENTENICH
“O vosso destino e o meu destino encontram-se, desde há anos, indissoluvelmente unidos um com o outro. Na ordem sobrenatural somos uma Família e daí se deduz o entrelaçamento de destinos. Quando eu me sacrifico pela Família e a Família se sacrifica por mim, trata-se de algo verdadeiramente real, muito mais real do que todas as outras coisas… Sim, compartilhar, e este não deveria estar institucionalizado, mas sobretudo existir a solidariedade de coração a coração. Unir, formando uma unidade sólida: unida de espírito, unidade de corações, de ajuda mútua…” (Textos para compreensão do 20 de janeiro)
- Padre Kentenich soube compartilhar da sorte pesada e difícil dos prisioneiros, compreendendo-os e tornando-os colaboradores de Schoenstatt.
- Sou também solidário com os que sofrem, amigo compreensivo para os que me cercam?
PROPÓSITO
Neste dia quero seguir o exemplo de solidariedade do Padre Kentenich: confortando alguém que sofre, ou fazendo uma obra de caridade a uma pessoa necessitada.
ORAÇÃO
MÃE, EU TE BENDIGO[1]
Mãe, filialmente te bendigo pelas dádivas que corações fiéis me enviaram; em tua bondade os despertaste e de novo serviste, ricamente, a mesa aos meus.
Grato, devolvo os dons de amor em tuas bondosas mãos de Mãe e de coração te peço: dize-me como a distribuição te dá honra e alegria.
Vem, Medianeira dos dons e das graças, tu e o Senhor sejam nossos convidados: une estreitamente o vínculo familiar, de coração a coração, de país a país.
Desprendidos, queremos servir a tua Obra, de coração forte e semblante alegre; e em nosso peregrinar terreno a ti confiamos o cuidado pela saúde e o sustento.
Assim Jesus nos aconselhou um dia: “buscai primeiro o Reino de Deus”, em palavras e obras; o Pai vos dará o restante, por acréscimo, nunca o deixeis em paz, com súplicas filiais.
Por este dons, ensina-nos a subir ao alto e, reverentes, inclinar-nos ante o Amor que, a cada dia, nos abre sempre mais seu inesgotável mar de misericórdia.
Implora as mais copiosas bênçãos de Deus para todos os que se esforçam e se empenham por nós; no árduo caminho da vida, concede-lhes com abundância teu amor e tua graça. Amém.
(Rumo ao Céu, 561 a 567)
[1] Esta oração foi composta em novembro de 1944, ocasião em que, como fruto do 3º Documento de Fundação, se desenvolveu muito a vida comunitária dos schoenstattianos em Dachau, Nessas semanas começaram a fazer diariamente uma hora de adoração. Também se introduziram as refeições comunitárias.
No “regulamento para as refeições” que o Padre José Kentenich escreveu, em dezembro de 1944, constava: “Logo que alguém receba um pacote de víveres, rezará a oração de gratidão” (refere-se a esta oração).
