5º DIA – PRISIONEIRO Nº 29.392

No dia 09 de março o Padre Kentenich começou um retiro espiritual, privadamente. Através do seu “serviço de informação” inteirou-se de que dois dias mais tarde o enviariam para Dachau. Imediatamente escreveu para Schoenstatt, dando instruções: “Quarta-feira vou para Dachau… Permaneçam simples, desprendidos, fiéis e fortes… Assim interpreto eu a situação: 1) Uma mudança de ares faz bem. É por isso um ato de amor especial, se me é posto algo assim à disposição. 2) Os sacrifícios que estão unidos a isso serão para-raios para toda a Família. Esta deve, entretanto, preparar-se para tormentas difíceis”. Pediu às Irmãs de Maria que catassem diariamente, até o seu regresso, todas as estrofes do Cântico de Gratidão. “Chegará o dia em que veremos, com clareza, por que tudo aconteceu assim. De qualquer modo fique certo que amemos todos os dias de nossa vida; então tudo correrá bem. Deus permanece sempre magnânimo, também quando nós não o entendemos”.

No dia 11 de março de 1942, na estação de Coblença, junto com outros prisioneiros, o Padre Kentenich esperava o momento de subir para o trem (eram vagões para gado) que os levaria para Dachau. A presença de duas Irmãs de Maria, a certa distância, com o seu vestido azul, punha uma nota de humanidade e delicadeza nessa situação desumana. Padre Kentenich teve como vizinhos o Dr. Caris, Diretor da Caritas, e um comunista que, cheio e angústia, não se afastava de seu lado. Em Wiesbaden, onde mudaram de trem, foram algemados.

Ao longo da viagem não receberam nada de comer nem de beber, sendo guardados por soldados da SS., acompanhados por cães amestrados. Na sexta-feira, 13 de março, depois de dois dias de penosa viagem, chegaram a Dachau. Um prisioneiro recordava a sua chegada: “Por ocasião da entrada no Campo de Concentração, cujas formalidades levavam várias horas, fui testemunha de como ambos os sacerdotes (um deles o Padre Kentenich) foram saturados de mofas e zombarias pelos da SS.”. ao passar pela “Seção Política”, foram fotografados e receberam o seu número, tocando ao Padre Kentenich o número 29.392. O chefe da SS., achando oportuno “abrandar” o recém chegado – que demonstrava muita tranquilidade e firmeza – começou a gritar-lhe grosseiramente, fazendo-lhe Todo tipo de pergunta.

Não recebendo respostas – Padre Kentenich olhava-o com tranquilidade e sorria-lhe cordialmente – enfurece-se mais ainda, fazendo um gesto de bater-lhe. Mas não chegou a fazê-lo. Dias mais tarde, ambos tornaram a se encontrar no escritório no qual se depunham os dados pessoais. O chefe reconheceu-o imediatamente.

– Eh! Que o prisioneiro me limpe a bicicleta – lhe disse.

– Sim, vou fazê-lo – respondeu Padre Kentenich – , mas não por que deve fazê-lo, mas sim porque, como homem livre, quero brindar-lhe esse serviço.

– … Não, você não necessita de fazer isso – respondeu finalmente, o chefe;

Enquanto escrevia os seus dados pessoais, Padre Kentenich perguntou-lhe porque no dia anterior lhe tinha gritado tanto: “Experimenta-se de tudo, para infundir medo…, foi a resposta. E a partir desse momento o chefe levou-o para o seu aposento (…!), contando-lhe toda sua vida.

Sem perda de tempo, Padre Kentenich começou a trabalhar em favor dos Sacerdotes. Apesar de estar proibida a atividade religiosa, dava, cada tarde, uma conferência espiritual, costume que manteria até o fim de sua prisão. “Devemos sincera gratidão ao Padre Kentenich – recorda Hans Carl, Diretor da Caritas, de Wuppertal, já que pela noite, fosse na rua do Bloco ou mais tarde no canto da sala de dormir, dava-nos pontos de meditação. Por muito tempo foi o único estímulo espiritual que recebemos”. Outra de suas ações foi distribuir secretamente, entre os seus coirmãos, a Sagrada Comunhão, que quase diariamente lhe traziam às escondidas.

De duas em duas semanas, os prisioneiros podiam escrever uma breve carta. No dia 22 de março, fazendo uso de dita faculdade, enviou seu primeiro cartão do meu novo lugar. “Utilizo por isso a primeira oportunidade para satisfazer esse desejo. Como tenho passado? São Paulo responderia: “Tudo posso naquele que me conforta”. Portanto, tenho passado bem. E no resto? Espiritualmente estou sempre com os meus, e espero servi-los mais que antes. Ao tornar-se realidade o segundo pecado original e ao decidir-se Cristo segundo o querer do Pai pelo sofrimento e pela morte, disse aquelas profundas palavras: “O grão de trigo deve primeiro ser lançado à terra e morrer; então dá muito fruto”. Assim penso eu também. E os Srs., toda a Família esforcem-se por levar a sério a entrega total. Para todos, sem exceção, saudações”. JK

Não há no prisioneiro queixa alguma. Nenhum estado de ânimo depressivo. As suas linhas deixam transparecer uma acentuada atitude de obediência a Deus Pai e de entrega heroica pelos seus.

Durante esses meses, por causa de uma grande falta de alimento, centenas de prisioneiros morreram no Campo de Concentração e “Mãe do pão”. Comprometiam-se a viver a atitude de “Inscriptio” (um total desprendimento de todo apego ao terreno e uma radical adesão à vontade de Deus) e a serem generosos, confiando na exortação evangélica: “Daí e dar-se-vos-á”.

Donde Padre Kentenich hauria forças para assim proceder? Ele estava profundamente arraigado no mundo e nos valores sobrenaturais.

 

MENSAGEM DO PADRE KENTENICH

Na conferência feita no Campo de Concentração de Dachau, Padre Kentenich testemunha à Família de Schoenstatt com ele ali reunida:

“Vejo a tarefa que me foi confiada por Deus um introduzir muitíssimos homens na dedicação total ao Deus eterno e infinito, em torná-los familiarizados com o mundo e a realidade do além. Ou, se quiserem: ajudar e apoiar a todos os homens, principalmente os filhos de nossa Família, para que, de modo pronunciado, se tornem homens divinizados. (…)

O espírito de Dachau é o espírito do perfeito arraigamento no mundo e na realidade sobrenatural. Este é o sentido mais profundo de nossa vida. Todos os demais arraigamentos são passageiros. Daqui a Mãe de Deus deve interceder continuamente, para que todos os filhos de Schoenstatt tenham este espírito de Dachau”. (16.07.1967)

  • Deus coloca também em meu caminho de vida o Padre Kentenich como um transparente seu, um caminho a me conduzir ao mundo sobrenatural.
  • A quem está vinculado o meu coração? Onde busco orientação e força nas horas duras e pesadas de minha vida?

 

PROPÓSITO

Nas horas difíceis, procurarei não me queixar e entregar tudo ao Capital de Graças.

 

ORAÇÃO

HINO DO INSTRUMENTO[1]

Mãe Três Vezes Admirável, dá que sejamos sempre teus instrumentos; com amor, hoje e sempre nos consagremos ao teu serviço. Usa-nos, como agrada a Deus, inteiramente para o teu Reino de Schoenstatt.

Toma nosso coração e nossa vontade, como tua inteira propriedade; ao teu aceno e à tua palavra eles se inclinam cegamente. A honra e a glória do instrumento é ser tua inteira propriedade, 

pronto a servir sem reservas a tua Obra de Schoenstatt. Envia-nos sofrimento, conduze-nos à luta, faze que conquistemos a plena vitória. Contra a astúcia e a fúria do demônio, dá-nos luz e  fortalece nosso ânimo.

Torna-nos semelhantes à tua imagem, como tu, passemos pela vida fortes e dignos, simples e bondosos, espalhando amor, paz e alegria. Em nós percorre o nosso tempo, prepara-o para Cristo.

Ainda que nos ameacem o mundo e o demônio e sobre nós se abatam tempestades, tu rompes vitoriosa todas as barreiras e nos concedes tua “onipotência”. Teu coração, porta do céu, seja para nós o refúgio seguro.

Se permanecermos fiéis, como teus instrumentos, jamais haveremos de perecer, tu nos ajudas, a cada instante, a produzir abundantes frutos. Pela tua mão, caminhemos alegres rumo ao eterno Schoenstatt. Amém.

(Rumo ao Céu, 606 – 611)

 

[1] Este hino encontra-se como um resumo no final do estudo intitulado “Piedade Mariana do Instrumento” que o Padre Kentenich ditou na primavera de 1944. Por arriscados empreendimentos, este estudo foi levado para fora do Campo de Concentração. Nele o Fundador caracterizou a linha central dos trinta anos de Schoenstatt, como Movimento, e dos vinte e cinco anos de fundação da União Apostólica em Hoerde (20 de agosto de 1919).