Um coração aberto a Deus e aos irmãos

Um coração aberto a Deus e aos irmãos

A Liturgia da Palavra do 23º Domingo do Tempo Comum nos conduz ao coração da vida cristã: a relação com Deus e com os irmãos. Deus nos recorda que ninguém caminha sozinho na fé e que somos responsáveis uns pelos outros.

Na primeira leitura, o profeta Ezequiel recebe do Senhor uma missão muito concreta: ser “vigia” para o povo. Sua tarefa é advertir o irmão quando este se afasta do caminho. A tarefa do profeta não é de condenar ou apontar os erros do outro, mas de assumir, com amor, a responsabilidade por ele. Deus nos mostra que o verdadeiro amor não permanece indiferente diante do sofrimento ou do afastamento de quem caminha conosco.

Essa mesma atitude aparece no Evangelho, no qual Jesus ensina aos discípulos, de maneira muito prática, como agir quando um irmão comete uma falta. O objetivo de todo o caminho proposto pelo Senhor é “ganhar o irmão” (Mt 18,15). A correção fraterna, quando verdadeiramente inspirada pelo Evangelho, nasce do desejo de restaurar os vínculos e ajudar o outro na obra de sua conversão. Eis um ensinamento particularmente atual em um mundo no qual é comum emitir juízos sem responsabilidade e comentar os erros alheios, esquivando-se da caridade.

Juntos, a caminho da realização do ideal

Em Schoenstatt, pela Aliança de Amor que selamos, tornamo-nos Família, comunidade de educação e de educadores. Por isso, em nossos grupos e comunidades, tomamos muito a sério a autoeducação, mas também, nos abrimos à correção fraterna, à educação através do outro. A abertura à educação de Deus revela-se na docilidade em acolher os instrumentos que Ele coloca em nossa vida e que desejam, com sinceridade, conduzir-nos à realização do ideal ao qual fomos chamados.

Quantas vezes precisamos aprender novamente a escutar, dialogar, perdoar e oferecer ao outro a oportunidade de recomeçar? Quantas vezes somos convidados a substituir o julgamento pela misericórdia e a indiferença pela responsabilidade fraterna, a fim de aproximar os irmãos do coração de Cristo, sempre disponível a comunicar-nos sua graça salvadora?

E o Evangelho culmina com uma das promessas mais consoladoras de Jesus: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou no meio deles” (Mt 18,20). A comunidade cristã não é simplesmente um grupo de pessoas que compartilham a mesma fé, mas, unidas pelo vínculo da caridade, torna-se lugar da presença e da manifestação de Cristo.

Que a Mãe, Rainha e Vencedora Três Vezes Admirável de Schoenstatt, em seu Santuário, nos ajude a ter um coração verdadeiramente aberto a Deus e aos irmãos, capaz de corrigir com amor e acolher a correção com humildade, a fim de testemunhar a comunidade nova, formada por personalidades livres, generosas e firmes, que nosso Pai e Fundador, Padre José Kentenich, almejou formar e presentear ao mundo e à Igreja por meio de Schoenstatt.

A loucura da cruz: o caminho para a verdadeira vida

A loucura da cruz: o caminho para a verdadeira vida

Neste 22º Domingo do Tempo Comum, a liturgia nos conduz ao coração do mistério cristão: a “loucura da cruz”. Aos olhos humanos, a cruz pode parecer sinal de fracasso, sofrimento e derrota. Para Deus, porém, ela se revela como caminho de amor, entrega e vida plena.

Seguir Cristo significa acolher essa lógica que ultrapassa os critérios do mundo. É pela entrega da própria vida, por amor a Deus e aos irmãos, que descobrimos a verdadeira vida que o Senhor deseja nos oferecer.

No Evangelho deste domingo (Mt 16,21-27), Jesus continua sua formação dos discípulos. Já não está diante das multidões, mas junto ao pequeno grupo dos seus escolhidos. É a eles que começa a revelar, de maneira mais clara, o destino que o espera em Jerusalém: “Começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.”

A notícia provoca uma reação imediata em Pedro. Ainda marcado por uma compreensão humana sobre quem é Jesus e sobre o que significa ser o Messias, ele não consegue aceitar a perspectiva do sofrimento e da morte: “Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!”

Pedro deseja poupar Jesus da cruz. No entanto, sua reação revela também uma tentação que pode acompanhar todo discípulo: querer seguir Cristo sem passar pela entrega, pela renúncia e pelo sacrifício. Por isso, Jesus o repreende com palavras fortes: “Sai daqui Satanás! Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens.”

Jesus não rejeita Pedro, mas corrige sua maneira de pensar. O problema está em olhar a realidade apenas segundo os critérios humanos. A lógica do mundo frequentemente valoriza o poder, o sucesso, o reconhecimento e o domínio. É justamente essa transformação que São Paulo apresenta na Carta aos Romanos: “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus.”

Jesus, então, apresenta aos discípulos não apenas o seu próprio caminho, mas também o caminho de todos aqueles que desejam segui-lo: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la.”

Cada cristão, como membro do Corpo Místico de Cristo, é chamado a configurar-se a Jesus, a tornar sua própria vida cada vez mais semelhante à vida do Mestre. Por isso, a liturgia deste domingo nos faz uma pergunta que permanece atual: qual lógica tem orientado a nossa vida — a lógica dos homens ou a lógica de Deus?

Peçamos à Mãe de Deus, nossa Mãe e Educadora, a graça de aprender com Ela a dizer “sim” à vontade do Pai, mesmo quando o caminho passa pela cruz, confiantes na promessa do Senhor: “Quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la.”

E vós, quem dizeis que eu sou?

E vós, quem dizeis que eu sou?

A pergunta que Jesus fizera outrora aos seus discípulos, continua sendo dirigida a seus seguidores, em todos os tempos. No centro das reflexões da liturgia deste 21º domingo do Tempo Comum, está Cristo e sua Igreja, nos quais se constrói e sustenta toda a existência cristã.

Muitos judeus, samaritanos, pagãos haviam cruzado os caminhos do Nazareno. Suas palavras e obras causavam espanto e admiração, de modo que se perguntavam: “Não é este o filho do carpinteiro?” (Mt 13,55). Naturalmente, haviam muitas especulações. Jesus, primeiramente, pergunta o que dizem as pessoas sobre ele. Não é movido por uma simples curiosidade, pois ele sabe o que se passa em cada coração humano; muito menos depende da afirmação de outros. Jesus quer conduzir os seus à profundidade: E vós, que andais comigo a tanto tempo, a quem falei como amigo e mestre quem dizeis que eu sou?

Pedro toma a palavra e faz sua solene profissão de fé: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. E Jesus o confirma: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la.” (Mt 16, 17-18)

Uma resposta que nasce do encontro com o Messias

A nós, que participamos do Altar da Palavra e da Eucaristia, somos interpelados com a mesma pergunta: Quem dizeis que eu sou? O Senhor não espera uma resposta pronta ou genérica, mas uma profissão de fé, a transmissão de uma convicção pessoal que nasce do encontro com Ele. Jesus não é apenas um profeta, um homem bom em palavras e obras, é o Deus-Homem, enviado ao mundo para nos reconciliar com o Pai. “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”, reza o Símbolo Niceno-Constantinopolitano.

Responder à pergunta do Senhor significa interrogar nosso coração e reconhecer o lugar que Cristo ocupa em nossa vida, a importância e o espaço que damos a Ele em nosso cotidiano, como assumimos os seus valores e o esforço que fazemos para segui-Lo com autenticidade.

De outro lado, a resposta de Jesus a Pedro, indica-nos a importância decisiva que Cristo confere à Igreja, como portadora de sua missão salvífica, como a barca que, embora atravesse os reveses do tempo e as tempestades do alto mar, não perecerá. Na Igreja, em seu Magistério, na Sagrada Tradição e nos carismas, através dos quais o Espírito Santo continua desdobrando seus dons, está o verdadeiro reconhecimento da Pessoa de Jesus, bem como o caminho mais seguro para a adesão a sua Pessoa e a sua mensagem evangélica.

Foto destacada: Paul Zoetemeijer na Unsplash

 Assumpta est Maria

 Assumpta est Maria

Ir. M. Clarissa Konrad – A doutrina de que Maria foi assunta ao céu de corpo e alma é uma verdade de fé da Igreja, desde os primeiros séculos cristãos. No entanto, foi definida e proclamada como dogma de fé, pelo Papa Pio XII, na Constituição Apostólica “Munificentissimus Deus”, a 1º de novembro de 1950.

Esse dogma apresenta duas linhas da vida e missão de Maria: uma caracteriza sua relação com Deus e a outra sua relação com a Igreja, isto é, conosco.

Em relação a Deus, ela é a Mãe do Filho de Deus, portanto, a Mãe de Deus, a grande Imaculada!

Amadeu, bispo de Lausana, afirmava que o corpo da Virgem Maria permaneceu incorrupto e que nem se pode imaginar que padecesse corrupção. “Pois ela era cheia de graça e bendita entre as mulheres (Lc 1,28). Só ela mereceu conceber o Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, e sendo virgem deu-o à luz, amamentou-o, trouxe-o no regaço, e prestou-lhe todos os cuidados maternos”. (MD 28)

Em relação à Igreja, isto é, em relação a nós, segundo palavras do Pe. Kentenich, Maria, assunta ao céu, é um livro da dignidade humana. “Na imagem da Bendita entre as mulheres o bom Deus configurou e apresentou de forma clara a imagem da pessoa humana assim como Ele a tinha planejado”. (Padre José Kentenich, 1950)

A Mãe de Deus, assunta ao céu de corpo e alma, não é apenas o membro por excelência da Igreja, senão, que, a Mãe da Igreja. Assim ela está no céu, correspondendo à necessidade do povo que quer ver tudo concretizado num protótipo, num modelo, num ensinamento.

Maria está no céu, junto ao Eterno Pai, ao Espírito Santo e a Jesus glorioso na sua divindade e humanidade. Ela está no céu com sua alma transfigurada, mas também com o seu corpo, com tudo que ela traz em si de humano. O mistério da assunção corporal de Maria ao céu, lança luz especial sobre certos valores fundamentais de nossa vida “como a pureza da alma, a humildade e a dignidade pessoal, o pudor e a castidade que devemos ao corpo, para libertá-lo de sua forte vida instintiva.” (Papa São Paulo VI, 15.08.1973)

Um coroação materno que intercede por nós junto de Deus

A Mãe de Deus, no céu, com sua alma e seu corpo glorificados, é tão íntima de Deus e tão próxima de nós! Com o seu coração sumamente cálido, cheio de afeto e compaixão maternal, permanece a desvelar-se por seus filhos.

Em Deus, ela sabe das nossas conquistas e é capaz de se alegrar conosco. Ela também sabe o que não conseguimos expressar, sabe das nossas preocupações e angústias. Jesus nô-la concedeu no momento culminante da Redenção, no Calvário, como nossa Mãe (Jo 19,26-27): “Eis a tua Mãe!” “Eis o teu filho!” Como toda boa mãe, ela sempre ajuda. No Santuário, em torno da imagem de graças vemos as palavras: “Servus Mariae nunquam peribit”! Um servo(a) de Maria jamais vai perecer!

Com o Pe. Kentenich proclamamos: “A Mãe de Deus deve tornar-se a grande Soberana! Mas, consideramos o seu reinado no mundo sempre como uma preparação para o reinado supremo de Cristo, o único Rei da Igreja.”

Ave, Mãe e Rainha assunta ao céu, nós te saudamos!

 

Foto destacada: comshalom.org.br

Cinco pães e dois peixes – Deus que nos chama à Aliança

Cinco pães e dois peixes – Deus que nos chama à Aliança

Iniciando o mês de agosto, dedicado pela Igreja no Brasil à reflexão sobre as vocações, a liturgia deste 18º domingo do Tempo Comum apresenta-nos o convite de Deus para nos sentarmos à mesa que Ele próprio nos preparou. O Senhor nos chama e oferece a cada um de nós o dom do seu amor, o alimento que sacia nossa fome de vida, de verdade, de justiça e de eternidade.

Na primeira leitura, Isaías dirige-se ao povo hebreu com as palavras que lhe foram ditas da parte do Senhor: “Inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida; farei convosco um pacto eterno, manterei fielmente as graças concedidas a Davi”. Esta aliança que Deus sela com a humanidade é sempre um chamado que nasce do seu amor redentor. Todavia, como bem o sabemos, a aliança é um compromisso mútuo que necessita uma resposta pessoal e livre.

O Evangelho de hoje, segundo as palavras do Padre José Kentenich, “nos apresenta uma imagem de Deus, sumamente consoladora. Mais profundamente visto é a imagem do Pai” que tem compaixão do seu povo, cura-o e não o despede de mãos vazias, mas revela-se a si mesmo, como aquele que é sempre fiel ao chamado que fizera e a aliança selada.

“Apenas” cinco pães e dois peixes

São Mateus relata como o olhar puramente humano dos discípulos os leva a dizer a Jesus: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!”.

Jesus, porém, não afasta, mas acolhe a pequenez e os limites dos seus seguidores; aceita a aparente insuficiência dos pães e peixes e revela a sua grandeza e poder como o Deus Salvador, o único capaz de saciar plenamente nossa alma: “‘Trazei-os aqui’. Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então, pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões. Todos comeram e ficaram satisfeitos.”

A graça de Deus é infinitamente grande e poderosa, pois para o Senhor dos céus e da terra nada é impossível. À nossa falta de fé e confiança, Ele continua manifestando sua presença e conduzindo nossa vida e a história da humanidade.

Foto: Heloísa Seikoski

Em cada Santa Missa, sob as espécies do pão e do vinho sacramentais, Ele continua saciando as multidões que tem fome e sede, renova a eterna Aliança selada com a humanidade e fortalece aqueles a quem chamou: “Irmãos: Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? Em tudo isso, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou!” (Rom 8, 35.37)

Assim, no início do Mês Vocacional, queremos conscientizar-nos que Deus continua chamando homens e mulheres para participarem da sua obra. Ele não espera que lhe ofereçamos grandes dons ou capacidades extraordinárias, mas corações disponíveis; novamente espera os “cinco pães e dois peixes”, por meio dos quais pode saciar a fome de Deus que marca a humanidade de todos os tempos.

Foto destacada: Studio-Annika / iStock

O semeador saiu a semear

O semeador saiu a semear

Coloquemo-nos na cena narrada pelo Evangelho deste 15º Domingo do Tempo Comum: Jesus havia saído de sua casa, dirigindo-se às margens do mar da Galileia. Espontaneamente, uma multidão o cerca e Ele, entrando numa barca, senta-se e começa falar-lhes através de parábolas.

Na primeira parte temos, pois, a parábola propriamente dita (Mt 13, 1-9). O quadro apresentado supõe as técnicas agrícolas usadas na Palestina de então: primeiro, o agricultor lançava a semente à terra; depois, é que passava a arar o terreno. Assim compreende-se porque é que uma parte da semente pôde cair “à beira do caminho”, outra em “terreno pedregoso onde não havia muita terra” e outra “entre os espinhos”. Evidentemente, as diferenças do terreno significam, nesta comparação, as diferentes formas como é acolhida a semente. No entanto, nem sequer é isso que é mais significativo: o que aqui é verdadeiramente significativo é a quantidade espantosa de frutos que a semente lançada na “boa terra” produz… Tendo em conta que, na época, uma colheita de sete por um era considerada farta, os cem, sessenta e trinta por um deviam parecer aos ouvintes de Jesus algo de surpreendente, de exagerado, de milagroso…

Mateus vê nas parábolas a ocasião para que apareçam, com nitidez, o acolhimento e a recusa da mensagem proposta por Jesus. Que quer isto dizer? As parábolas apresentam a proposta do “Reino” numa linguagem sugestiva, rica, clara, concreta, questionante, interpeladora… Tornam tudo claro e evidente para os ouvintes; por isso, após escutar a mensagem apresentada nas parábolas, só não aceita a mensagem quem tiver o coração endurecido e não estiver mesmo interessado na proposta. As parábolas são, portanto, o fator decisivo: propõem clara e inequivocamente a realidade do “Reino”. Quem acolher essa mensagem, receberá mais e “terá em abundância” (quer dizer, irá entrando, cada vez mais, na dinâmica do “Reino”); mas quem não a acolher (apesar da clareza e da acessibilidade da mensagem), está a rejeitar o “Reino” e a possibilidade de integrar a comunidade da salvação.

Destinatários da bem-aventurança

Diante da Palavra de Jesus, há várias atitudes… Há aqueles que têm um coração duro como o chão de terra batida dos caminhos: a Palavra de Jesus não poderá penetrar nessa terra e dar fruto. Há aqueles que têm um coração inconstante, capaz de se entusiasmar instantaneamente, mas também de desanimar perante as primeiras dificuldades: a Palavra de Jesus não pode aí criar raízes. Há aqueles que têm um coração materialista, que dá sempre prioridade à riqueza e aos bens deste mundo: a Palavra de Jesus é aí facilmente sufocada por esses outros interesses dominantes. Há também aqueles que têm um coração disponível e bom, aberto aos desafios de Deus: a Palavra de Jesus é aí acolhida e dá muito fruto. Os verdadeiros discípulos (a “boa terra”) identificam-se com aqueles que escutam as parábolas, as entendem e acolhem a proposta do “Reino”.
Temos aqui, portanto, uma exortação aos cristãos no sentido de acolherem a Palavra de Jesus, sem deixarem que as dificuldades, os acidentes da vida, os outros valores a afoguem e a tornem uma semente estéril, sem vida.

Foto de capa: IStock

O encontro de Deus com a humanidade

O encontro de Deus com a humanidade

Uma das perguntas que a liturgia deste domingo quer ajudar-nos a responder é: como encontrar Deus? Ou ainda, como se dá nosso encontro com Ele? A resposta configura uma dupla perspectiva: de um lado, a iniciativa divina e de outro, nossa predisposição humana.

A primeira leitura, retirada da profecia de Zacarias, mostra-nos como Deus se revela na pequenez e na humildade: “Eis o teu Rei, justo e salvador, que vem ao teu encontro,
humildemente montado num jumentinho”. Deus, sendo Onipotente, não se reveste de prepotência, se não que doa-se a Si mesmo, assumindo em tudo nossa natureza humana, exceto no pecado, para reconciliar-nos consigo. Mistério do amor divino, que a teologia chama de kênosis, um total despojamento. Esta é a marca da atitude divina, do Deus que vem ao nosso encontro.

A graça pressupõe a natureza

Padre José Kentenich, Pai e Fundador da Obra de Schoenstatt, aplica um princípio empregado por Santo Tomás de Aquino: “A graça pressupõe a natureza”. Isto significa, em outras palavras, que a iniciativa divina precisa ser correspondida pela predisposição humana.

Deus vem ao nosso encontro; enviou-nos o seu Filho Unigênito; revela-se na Palavra, na Eucaristia e na vida concreta de seus filhos, cujos caminhos foram preparados por este Pai. Mas, precisamos ir ao seu encontro, percebê-lo, deixar-lhe espaço para que o seu Espírito que habita em nós, plenifique nossa vida com a sua graça.

Jesus, a via filial para o coração do Pai

No Evangelho, Jesus ensina como nós devemos ir ao Pai: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.”

Jesus apresenta a si mesmo, como se exortasse: ‘Vejam, olhem a mim! Estou aqui para revelar o Pai e conduzir todos a Ele. Como eu reconheço que tudo o que sei, recebi do Pai, segui o meu exemplo, os meus passos na via filial ao coração de Deus, meu Pai e vosso Pai.’

Ademais, a consciência de nossa pequenez, diante do amor redentor de Deus é valiosa garantia para encontrar-nos com Ele. Uma alma que confessa sua pequenez, mas acima de tudo que se sabe amada incondicionalmente, não apesar, mas justamente porque pequena, abre-se para um profundo encontro com Deus.

Nossa resposta a Deus, que incessantemente quer estar em comunhão conosco é o amor filial que lhe dedicamos. Que a vivência desta liturgia nos assemelhe a Jesus, Filho do Pai, e nos aponte caminhos para a união com Deus na vida diária.

Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos

Neste 13º Domingo do Tempo Comum, celebramos a Solenidade de Pedro e Paulo, Apóstolos. Olhando para o testemunho destes dois pilares da Igreja, na radicalidade do seu seguimento a Jesus, somos interpelados a seguir seus passos, encarnando a mensagem evangélica.

Se olhamos para o chamado de Pedro, à beira do mar da Galileia, para aos três anos em que acompanhou o Salvador, ou ainda para a sua dura queda, depois da qual é encontrado pela misericórdia de Deus que o restaura e confirma; ou para a conversão de Paulo, que transformara o coração de um perseguidor implacável em um coração inflamado pelo amor de Cristo a anunciar a salvação a todos os povos; O que percebemos em comum?

A transformação acontece a partir do encontro com Jesus 

Um encontro que muda tudo. Que transforma um simples pescador e um judeu convicto, em eloquentes testemunhas da Boa-Nova.

 

Quando, dois mil anos após a vinda de Jesus, a Igreja continua nos apontando estas personalidades, não evidencia necessariamente suas virtudes, conquistas, desafios vencidos, obras realizadas… Mas aponta para o segredo destas vidas, que continua capaz de transformar e plenificar de sentido também a nossa existência, fazendo-a frutificar no seio da Igreja constituída por Cristo, a qual não será vencida pelas investidas diabólicas.

Esta transformação, embora encontre um momento ápice, acontece paulatinamente, em meio aos reveses da vida cotidiana, às vitórias e fracassos, como bem nos ilustra o exemplo desses apóstolos.

É a profissão de fé no “Messias, o Filho do Deus vivo”, assim como faz Pedro no Evangelho de hoje, que sustenta o testemunho credível, o anúncio ousado, o constante recomeçar a que cada um de nós, cristãos católicos, somos chamados.

A esperança que não ilude

A segunda leitura, retirada da 2ª Carta de São Paulo a Timóteo, faz ressoar as palavras do Apóstolo, como um testamento: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Daqui em diante, está-me reservada a coroa da justiça, que o Senhor, o justo Juiz, me dará no dia do juízo; e não só a mim, mas também a todos aqueles que tiverem esperado com amor a Sua manifestação.”

A recompensa de Deus é nossa esperança, que não defrauda nem se corrompe, que o tempo não apaga ou faz esmorecer. É a herança da vida eterna, junto d’Aquele que nos chamou para estarmos juntos no banquete da eternidade.

Enquanto ainda estamos neste mundo, peregrinemos iluminados pela vida destes grandes Apóstolos e esperemos confiantes a realização das promessas do Senhor aos seus eleitos.

Liturgia | Quaresma | Páscoa | Eu sou a Ressurreição e a Vida

22 Damos mais um passo em nossa preparação para a Páscoa de Nosso Senhor. Neste 5º domingo do tempo santo da Quaresma, a Palavra de Deus continua a desafiar-nos à conversão e à vida nova em Cristo.

Este é o tempo propício para desatar os nós que nos prendem à morte e ao pecado, abrindo-nos à vida da graça e superando o comodismo. É o momento de abraçar, de todo o coração e com toda a força, a oferta irrecusável de vida que Deus insistentemente nos faz ao dizer de si mesmo: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá” (Jo 11, 25).

“E Jesus chorou”

O Evangelho nos revela o coração misericordioso de Jesus, que se compadece e chora com os que choram. Ao chegar à casa de Marta e Maria após receber a notícia da morte de seu amigo Lázaro, e ao vê-las chorar com os judeus que ali estavam, a delicadeza do escritor sagrado relata: “Quando Jesus a viu chorar, e também os que estavam com ela, estremeceu interiormente, ficou profundamente comovido (…) E Jesus chorou” (Jo 11, 33.35).

Jesus se compadece da dor humana que carregamos em nosso corpo mortal — as feridas e culpas causadas pelo pecado original, pelo qual a morte entrou no mundo. Jesus chora. Seu coração inteiramente humano sente, tem misericórdia e se volta aos seus.

“Compadecer” significa sofrer junto. Isto nos recorda e acalenta, pois reafirma a verdade de que o Senhor e Salvador está conosco, interessa-se por nós e move-se em misericórdia.

Mas Ele não se encerra apenas no sentimento, embora autêntico e genuinamente humano. Jesus também age por amor: dirige-se ao Pai e exclama com voz forte: “Lázaro, vem para fora!”. Jesus ressuscita Lázaro a fim de que aqueles que o rodeiam vejam a glória de Deus e creiam que Ele é o enviado do Pai.

Creio na ressurreição da carne, na vida eterna

Jesus ressuscita Lázaro para manifestar a todos aquilo que há de vir pela ressurreição dos mortos: não apenas uma vida terrena efêmera, mas a vida nova em Deus, na qual cremos e professamos na oração do creio: “Creio na ressureição da carne, na vida eterna. Amém”

Assim, a liturgia nos convida a renovar a fé e a confiança no amor misericordioso do Senhor, que traz vida nova à nossa existência terrena, mesmo que a densa sombra da morte pareça vencer, e nos prepara para a vida eterna junto d’Ele.

São José, ícone do amor e do cuidado

Ir. M. Neiva Pavlak – No dia 19 de março a Igreja universal celebra a solenidade de São José, pai adotivo de Jesus e esposo da Virgem Maria.

Como Família de Schoenstatt, desde os inícios, concentramos em Maria nossa devoção e nosso amor, e em um grau tão elevado que selamos com ela uma Aliança de Amor e a ela demos um trono no Santuário. Vemo-la como ponte e caminho seguro que nos conduz a Jesus.

No entanto, se voltarmos nossa atenção aos elementos que estão nos Santuários, podemos ver em destaque, num altar lateral, a imagem ou estátua de São José. Assim como não podemos ver Maria separada de Jesus, também não podemos venerar Maria separada de São José, aquele que Deus escolheu para ser o guarda e protetor da Sagrada Família.

Cathopic

 

Nosso Pai e Fundador tinha um profundo amor e devoção a São José, não só por ser portador do seu nome, mas porque o via em sua grande missão que Deus lhe confiou. Em uma homilia, em 1934, ele fala sobre o mistério do amor na vida e no atuar de São José, e diz: “De São José, que consideramos como o Protetor da Santa Igreja, esperamos também a proteção do amor divino, um forte crescimento do amor divino… O amor divino é expresso de muitas formas… Todo amor sempre quer transformar-se em verdadeiro e profundo amor a Deus. Para nós, o amor a Maria é o amor a Deus. O crescimento do amor a Deus deve tornar-se, de modo especial um elevado crescimento de íntimo amor a Maria. Amor a Maria é amor a Deus, caso contrário, deve ser considerado como idolatria. Se São José nos interceder um crescimento do amor a Maria, podemos esperar também, por outro lado, um crescimento do amor a São José.”

Ele pergunta: “Será que, para a Mãe de Deus, após Deus e Jesus, não estava São José em primeiro lugar? Considerem seu relacionamento para com ele e dele para com ela. Se entendo bem, e se, nos poucos momentos que a Sagrada Escritura fala, eu descobrir o que o bom Deus quer dizer, veremos que é tríplice a atitude que enlaça as três pessoas”, Jesus, Maria e José. “A Mãe de Deus deve ter tido um delicado e íntimo amor a São José… Pessoas santas possuem sempre uma simpatia secreta por pessoas da mesma atitude, pessoas da mesma natureza. São José deve ter gostado da Mãe de Deus, porque ela era santa.” A Mãe de Deus devia ter também uma confiança sem limites e sem reservas em São José. “São José foi doado à Mãe de Deus, na ordem objetiva do ser, como seu protetor. … Ele recebeu o cuidado especial de tudo, quer na própria, como em terra estranha. Ela confia nele, pois ele tem a responsabilidade principal pela pequena Sagrada Família.”

“Esta é, certamente, a confiança que os genuínos filhos da Igreja aprenderam da Mãe de Deus, de se concentrarem principalmente nas situações econômicas aflitivas e se dirigirem ao Patrono da Igreja, o homem singelo, o guarda e pai que dá o pão em todas as aflições materiais.”.

Muitas famílias católicas consagram-se a São José e lhe dão um lugar especial em seu lar, ou colocam sua imagem no Santuário-lar como sinal de sua fé e confiança no seu poder intercessor. São José é também um ícone para os pais de família, assim como testemunha Guilherme Bilhalva, esposo da Kate e pai dos pequenos José Luiz e Sophie Maria, pertencentes à Liga de Famílias de Porto Alegre: “Para mim, São José é o modelo máximo de guardião silencioso. Como esposo e pai, ele me ensina que a nossa missão nem sempre precisa de grandes alardes, mas de uma presença constante e protetora. Ele é a prova de que cuidar da família e cumprir a vontade de Deus se faz no trabalho do dia a dia e no cuidado atento com quem amamos.”

Com o Pe. Kentenich “esperamos que, por intercessão de São José, nos tornemos um pouco mais livres das coisas terrenas, e que ele nos conduza, sempre mais, ao tesouro do perfeito amor a Deus”.

 

Textos de uma palestra dada pelo Pe. Kentenich às Irmãs de Maria.