Domingo Laetare – um passo a mais em nosso itinerário quaresmal

A quaresma é um convite a um “retiro prolongado”, uma preparação de 40 dias para bem celebrarmos o grande mistério de nossa fé, renovado no tríduo pascal e a cada Santa Missa, na qual o Gólgota se torna realidade de maneira incruenta sobre o altar.

“Alegra-te, Jerusalém!”

Estando no 4º domingo deste tempo especial de penitência, oração e conversão, a Santa Igreja nos chama à alegria, assim como o celebrante reza na antífona de entrada da Santa Missa deste dia: “Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais! Cheios de júbilo, exultai de alegria, vós que estais tristes, e sereis saciados nas fontes da vossa consolação” (Is 66,10)

O Domingo Laetare ou domingo da alegria convida-nos a experimentar, no meio deste itinerário quaresmal, uma antecipação da alegria pascal e nos recorda que toda conversão cristã está orientada para a esperança na vida nova que há de vir.

A Liturgia da Palavra nos ensina esta confiança sem limites no Senhor, que conduz seu povo como o pastor às suas ovelhas, levando-nos à verdadeira luz, capaz de curar as cegueiras que trazemos em nós, por tantas vezes andarmos errantes em meio às trevas do pecado e da morte.

O Evangelho da cura do cego de nascença nos introduz nesta realidade salvífica e exorta-nos a uma profissão de fé no Senhor. Jesus o interroga: “Acreditas no Filho do Homem?” E após o próprio Jesus confirmar sua identidade divina, ele exclamou, prostrado diante do Salvador: “Eu creio, Senhor!”

 

Que ao bem celebrar e viver a liturgia deste domingo da alegria, possamos ser fortalecidos em nosso caminho quaresmal na certeza da ressurreição e da vitória de Cristo, Luz do mundo, que ilumina toda e qualquer treva e cura-nos das cegueiras que nos impedem de viver a fé no Senhor.

Quarta-feira de Cinzas – inicia a Quaresma

“Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração”, assim inicia a primeira leitura, retirado do livro de Joel (2,12). No tempo santo da Quaresma, a Igreja nos exorta à renovada conversão do coração, a uma decisão mais profunda ao seguimento de Cristo, que se faz um de nós em tudo, exceto no pecado, e entrega-se no altar da Cruz em remissão pelas nossas transgressões.

Todavia, pode ser que iniciemos esta Quaresma como “mais uma” em nossa vida. Desta forma, colheremos pouquíssimos frutos do manancial de graças que nos é ofertado neste tempo e que nos preparam para bem celebrar a festa da Páscoa. Queremos lançar o olhar ao alto e deixar que o próprio Deus nos ensine como viver conforme a sua vontade.

‘Recorda-te que és pó e em pó te hás de tornar’

Podemos nos deixar inspirar pelas palavras do Padre José Kentenich, proferidas no sermão da Quarta-feira de Cinzas do ano de 1954:

“Ainda ressoam em nós as palavras do sacerdote ao tocar nossa testa com a cinza: ‘Recorda-te que és pó e em pó te hás de tornar’. Uma palavra antiga, muito conhecida, válida por todos os tempos, em todas as regiões. Válida para todos; válida também para nós. Sim, para nós que durante o ano demos tanta importância a aumentar nossos bens. Para nós, que nos ocupamos continuamente com nosso corpo e os cuidados pelo seu bem estar, sua saúde e sua beleza. Válida para os que receberam pelo rádio, pela televisão e pela imprensa incontáveis e convincentes recomendações sobre a cultura do corpo. Um dia, porém, o corpo a que dedicamos tantos cuidados será novamente reduzido a pó: voltará à substância e à matéria de que proveio. Recorda, pois, que és pó e em pó te hás de tornar!

Foto: Unspash

São sérias estas palavras que ressoam na nossa alma. A Igreja orienta-nos a não volvermos tanto nossa atenção para o corpo e a que não nos concentremos quase exclusivamente nos nossos negócios, durante as próximas semanas. Voltemos nosso olhar ao alto. Sursum corda! – Ao alto os corações! Olhemos ao alto! Durante a Quaresma, coração e olhar fixam-se particularmente com grande e ardente amor na grande cena do Gólgota. E quando os sinos anunciam o sermão da Quaresma, ressoa em nosso espírito e em nosso coração a palavra de Jesus: “Quando eu for erguido da terra, atrairei todos a mim!” (Jo 12,32) O crucificado não se cansa de nos atrair a si com força irresistível. Faz-nos esquecer dos afazeres de cada dia. Convida-nos a vir à Igreja para escutar suas palavras e responder ao chamado e convite do seu amor.”

Que neste tempo quaresmal nos deixemos conduzir por Maria, a grande Mãe da Dores, a um profundo e vital encontro com a pessoa de Cristo, capaz de configurar e transformar nossa vida.

Foto de capa: Adobe Stock

Seja o vosso ‘sim’: ‘Sim’, e o vosso ‘não’: ‘Não’

No Evangelho deste 6º domingo do tempo comum, antes de iniciar o tempo santo da Quaresma, Jesus nos exorta à fidelidade: “Seja o vosso ‘sim’: ‘Sim’, e o vosso ‘não’: ‘Não’.” (Mt 5,37)

No seguimento de Cristo é de fundamental importância a educação à fidelidade: à sua Pessoa, aos seus Mandamentos, à sua Igreja, aos seus desígnios assim como se nos revelam no dia a dia. Fidelidade esta que forma nossa vida concreta, que nos interpela a abandonar condutas e assumir com compromisso e responsabilidade o chamado à santidade.

Talvez, com tristeza, podemos constatar que há tantos sinais de infidelidade no mundo: há infidelidade nas relações conjugais, sociais, econômicas, políticas… os interesses mudam repentinamente e com eles também os planos e projetos se esvanecem, antes mesmo de perguntar-se sobre qual é a vontade de Deus para nossa vida concreta.

Padre José Kentenich dava muito valor à fidelidade, não obstante as falhas, mas uma fidelidade que impele a recomeçar com perseverança quantas vezes for necessário. Dele recebemos esta valiosa palavra que nos estimula na busca pela santidade vivida a cada dia:

“A fidelidade nos torna grandes, porque nos coloca entre as fileiras dos santos. O que os tornou santos? Certamente, a graça de Deus. Mas, olhando a partir deles, foi a fidelidade”