
SERENIDADE E AUDÁCIA
A forma como o Padre José Kentenich passou as quatro semanas no ‘bunker’ (prisão solitária subterrânea) causou grande impressão na cadeia, inclusive entre a gente da Gestapo A isto somou-se a sua própria confissão: “Não tive na prisão sub nenhum só segundo de amargura”. Sem que fizesse nada de sua parte, passou a ser um personagem popular na prisão, sendo saudado inclusive pelos guardas.
A mudança de cela fez com que ficasse vizinho do Pe. Eise (um dos seus colaboradores de Schoenstatt, também preso). “Com pancadinhas fiz-me reconhecer imediatamente. Entendíamo-nos através de diversos sinais e conversávamos à nossa maneira. Juntos cantávamos muitíssimo “não havemos de perecer” (último verso do Hino da Família de Schoenstatt)”.
Havia começado a época das chuvas. Diariamente os prisioneiros tinham um tempo de movimento no pátio da cadeia. Como o Padre Kentenich tinha levado para Coblença os seus sapatos mais velhos, estes tornaram-se ralos, por onde passava água. Frequentemente andava com os pés molhados. Um dia, nos fins de outubro, pediu a um dos guardas – o de pequena estatura – se podia ir até o Hospital São José (atendido pelas Irmãs de Maria) e pedir à Irma Superiora que lhe enviasse um bom par de sapatos. Para isso escreveu uma breve mensagem: “Na sexta-feira ou sábado, por favor, junto com a roupa traga-me também sapatos. Os que tenho aqui deixam passar a água…”. O guarda aceitou ser mensageiro. Quando lhe trouxeram os sapatos, veio também uma cartinha da Superiora: tinha se estabelecido o primeiro contato ilegal. Daí em diante, dois dos guardas seriam as pontes de contato ilegal com Schoenstatt: um era protestante, e, por sua estatura muito grande, recebeu o apelido de “emissário grande”; o outro, pequeno católico, foi chamado de “o pequeno emissário”. Padre Kentenich tinha a convicção de que devia trabalhar, por todos os meios ao seu alcance, para o serviço de sua Família de Schoenstatt, apesar dos riscos devido a este modo de proceder.
Através dos emissários, as Irmãs enviaram ao Padre Kentenich os utensílios necessários para celebrar a Santa Missa. Era estritamente proibido rezá-la. Um dia, o “emissário grande” ofereceu o seu serviço para trazer-lhe: hóstia, vinho, um pequeno cálice e um Missal. Pe. Kentenich guardava-os escondidos por trás de uns livros, sobre a mesinha colocada justamente em frente ao postigo da porta. A este respeito ele relata: “De manhã muito cedo, celebrava missa, enquanto se limpavam as celas, e certamente no meio de muito ruído. Havia uma grande confusão em toda a casa. As portas se abriam, os guardas entravam nas celas, as chaves giravam, as portas da cela batiam-se, os baldes moviam-se de lugar, faziam-se as camas, limpavam-se as celas. Enquanto os outros corriam por ali, eu celebrava. Punha tudo à vista. Quando chegava o controle escondia tudo rapidamente”.
Chamava atenção a serenidade e a audácia demonstradas pelo Padre Kentenich durante a sua estadia na cadeia. Sem querer, a gente pergunta de onde tirava ele esta atitude. Um prisioneiro, que não podia dominar a situação, em determinada altura aproximou-se do Padre Kentenich e perguntou-lhe se, de vez em quando, não tinha passado horas amargas. “Não, nenhuma hora pesada respondeu-lhe – nem sequer um segundo pesado, nem quando estive no bunker, que era uma máquina extraordinária de desgaste”. Da sua cela, e arriscando-se continuamente, porque de forma ilegal, Padre Kentenich manteve abundante correspondência com a Família de Schoenstatt.
As provas extraordinárias pelas quais passava implicavam também graças extraordinárias, muita luz interior. “Tinha então a minha mente tão cheia de luz – escrevia – que só necessitava pôr-me a ler…. As coisas eram assim: levanta-me de manhã e escrevia tudo o que durante a noite era claro para mim”. Meditava sobre a situação da sua Família, da Igreja e do mundo. A Europa e o mundo estavam envolvidos nas chamas e na destruição da segunda guerra mundial. Padre Kentenich procurava penetrar na obscuridade dos tempos e intuir o futuro: “No horizonte aparecem, com crescente clareza – escreve -as grandes linhas estruturais de uma nova ordem mundial; um mundo velho está em chamas”.
MENSAGEM DO PADRE KENTENICH
Padre Kentenich tinha se preparado desde há muito tempo para passar uma situação assim. Ele comenta: “Isto provém do fato de que desde há muito tempo, anelava viver essas coisas, e ainda piores, sucedeu-me então, como ao peregrino, que, finalmente, depois de muito esperar, alcança a terra de seus anelos e de seus sonhos dourados”.
Tratava-se de viver uma radical e total disponibilidade para o querer de Deus manifesto nas circunstâncias. Quando se tem em conta a dificuldade da natureza humana em aceitar a dor, normalmente é muito difícil, se não impossível, alcançar essa indiferença, se não se aspira positivamente ao amor à Cruz. É o que na Família de Schoenstatt se conhece com o nome de “Inscriptio”.
Pe. Kentenich explicava-a da seguinte maneira: “É frequente dizer-se a Deus: Tu podes me enviar qualquer coisa… menos essa. “Inscriptio” consiste em dizer a Deus: “Tu podes enviar-me qualquer coisa… especialmente essa” (a que eu temo). Uma atitude assim supõe uma radical confiança em Deus como Pai, que nunca mandará uma cruz ou dor sem dar abundantes forças para carregá-la. O Cristianismo não é uma religião da dor; nem a medida da dor é sintoma de perfeição. É a dor que o Pai previu para nós, se é suportada com paciência e transformada com amor”.
Eu também, como o Padre Kentenich, sou capaz de crer no amor de Deus Pai e dizer: “Tu podes enviar-me qualquer coisa… especialmente essa”, que tanto temo?
PROPÓSITO
Hoje, ao menos uma vez, quero escolher aquilo que é mais difícil para mim, a fim de crescer na generosidade e na fé sobrenatural.
ORAÇÃO
EU TE PEÇO TODA A CRUZ
Pai, eu te peço toda a cruz e sofrimento que preparaste para mim. Liberta-me da vontade própria doentia,
que eu satisfaça teus mais leves desejos! Torna-me semelhante, igual a meu Esposo, só então serei feliz e sumamente rico.
Nada há que não possas enviar-me, faze tudo, para dominar meu eu, e assim, só Cristo viva e opere em mim, nele, eu te cause somente alegria.
Pai, nunca me enviarás cruz ou sofrimento, sem me conceder forças abundantes para o suportar; o Esposo em mim ajuda a carregar, a Mãe vigia: assim sempre somos três.
Se, porém, quiseres preservar-me do sofrimento, só quero corresponder ao teu desejo paternal, então te peço: afasta de mim toda a adversidade, tu és a única estrela de minha vida.
Até agora eu mesmo estive ao leme e, no barco da vida, muitas vezes te esqueci; desamparado, para ti me voltei, de vez em quando, para que o barquinho navegasse conforme os meus planos.
Dá-me, Pai, finalmente a conversão total! No Esposo quero anunciar ao mundo inteiro: o Pai tem o leme nas mãos, embora eu desconheça o destino e a rota.
Agora me deixo guiar cegamente por ti: quero escolher somente tua santa vontade; contigo atravessarei noites e trevas, porque teu amor sempre vela por mim. Amém.
Rumo ao Céu (393-400)
