Desde 2014, grupos rebeldes têm aterrorizado a população civil no norte da diocese de Butembo-Beni. Eles matam, roubam, estupram e sequestram. Mais de 4.000 pessoas morreram, muitas mais foram feridas e abusadas. A maioria das vítimas são adultos. Mas, o que acontece com as crianças que perderam seus pais, que foram vítimas e testemunhas dos atos mais terríveis e que agora estão indefesas?
As crianças são o centro do nosso trabalho e, com a ajuda do Kindermissionswerk, decidimos cuidar desses meninos e meninas especialmente vulneráveis. Em primeiro lugar, identificamos as crianças afetadas, o qual estava relacionado a muitos temores, porque essas crianças vivem em locais particularmente perigosos. Nós os ouvimos e oferecemos apoio em nosso programa de reabilitação.
As seguintes observações tiveram um impacto especial sobre mim.
O trauma de ver os pais assassinados
O número de órfãos que apoiamos junto com nossas escolas associadas aumentou consideravelmente: de 565 meninas e meninos em 2016 para 862 em 2020. Todas as crianças usaram o mesmo termo quando falaram sobre a morte de seus pais: “Balikondaka Papa, balikondaka Mama”, disseram eles em sua língua local. Traduzido, significa: “Derrubaram ao papai como se tivessem cortado uma árvore, derrubaram a mamãe como se tivessem cortado uma árvore”.
As crianças percebem a morte de maneira diferente: elas tiveram que aprender a diferença entre morte natural e assassinato. Disseram-nos: “Pelo menos o pai desta ou daquela criança morreu de uma enfermidade e foi sepultado com dignidade. Meu pai foi estrangulado ou decapitado. Foi enterrado em um saco plástico, às vezes cortado em pedaços ou já decomposto. Só pudemos saber que era ele pelas roupas. Nem sequer pudemos enterrá-lo por medo do inimigo”. As crianças aceitam que todo mundo deve morrer um dia, mas não aceitam a maneira que seus pais tiveram de morrer.
Pesadelos e medos
Em todas as comunidades das aldeias que temos visitado, estamos encontrando um profundo temor, terror, insegurança e medo do desconhecido. Os níveis de estresse pós-traumático são muito altos em toda a nossa região. Principalmente as crianças desenvolvem o sentimento de serem abandonadas e desatendidas, o que provoca uma crise de identidade. Elas se perguntam: a quem eu pertenço? A maioria das crianças traumatizadas tem pesadelos. Junto com os medos, as experiências reaparecem. O olhar vacilante dessas crianças também revela seus medos. Muitas mal podem dizer o que experimentaram durante os massacres. Elas tremem e choram. Têm medo de uniformes militares que recordam os assassinos de seus pais.
Vez e outra a questão da identidade dos grupos rebeldes é levantada nas aldeias. Por que, depois de tantos anos de sofrimento, o governo congolês ainda não conseguiu controlar esses grupos? Ao mesmo tempo, muitos têm grande esperança de que Deus salvará seu povo. Muitos sobreviventes foram à igreja para rezar depois dos ataques. A imagem de Nossa Senhora carregando o menino nos braços acalma especialmente as crianças. Alguns dizem: “Quando olho a foto, penso na minha mãe que me embalou e cantou para mim”.
Fiquei comovida ao ver os presentes que as crianças trouxeram à igreja, para os seus pais, na missa do funeral: todos trouxeram nozes e cacau, frutos das terras de seus pais. Foi uma mensagem forte. Porque aqueles que matam e saqueiam roubam as nozes, o cacau e a madeira das árvores. Se perguntarmos aos filhos sobre as lembranças dos pais, eles só nos contam coisas boas: lembram-se das canções de ninar das mães, dos passeios com seus pais, das boas refeições, do fato de seus pais os encorajarem a aprender e cuidarem deles quando estavam doentes.
Desafio para os voluntários
Achamos difícil responder com eficácia às necessidades de uma população frágil: tanto os adultos como as crianças estão gravemente traumatizados e têm pouca liberdade de movimento devido ao perigo constante dos grupos armados. Vivem da agricultura, mas temem constantemente serem violados, sequestrados ou até assassinados quando cultivam seus campos. Em um ambiente tão complexo, é difícil definir prioridades. No entanto, uma de nossas prioridades é claramente apoiar os órfãos que foram vítimas de atos terríveis. Queremos evitar que eles sofram o mesmo destino que seus pais. Também não queremos que eles sejam recrutados por uma milícia para vingar seus pais. Devem sentir que não estão sós, que estamos com eles, que a Igreja está com eles.
Nossa fé em Deus e a solidariedade da Igreja nos ajudam. Também é bom ver que nossos esforços têm efeito e ajudam as crianças. O reconhecimento e a gratidão das pessoas das aldeias também nos fortalecem. Para lidar melhor com a carga psicológica, nós voluntários nos reunimos regularmente e trocamos ideias. Embora também sejamos vulneráveis, tentamos ser um exemplo para as crianças. Muitos nos percebem como substitutos dos pais. Os resultados positivos do nosso trabalho, a capacidade de recuperação das crianças e o apoio dos nossos parceiros do projeto incentivam-nos a continuar o nosso trabalho. É muito gratificante para nós que quase 90% de todas as crianças que acompanhamos tenham boas notas e tenham sido aprovadas no ano letivo. Além disso, pudemos observar desenvolvimento positivo e estabilização psicológica na maioria das crianças.
Fonte: schoenstatt.com
