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Categoria: 75 anos 31 de maio de 1949

O caminho rumo ao 31 de Maio: Conheça a trajetória que levou ao III Marco

 

Enrique Soros – Em 31 de maio de 1949, o Pe. José Kentenich depositou no Santuário de Bellavista, Chile, uma carta que causaria comoção na Igreja. Por que essa “carta sobre o altar” é tão significativa? O artigo revisa os fatos anteriores que geraram esse ato, sua razão, suas consequências e sua transcendência para a história do Movimento.

Inimigo número um do regime nazista

O Pe. José Kentenich, fundador do Movimento de Schoenstatt, foi preso pelos nazistas por pregar a um terço do clero alemão e a milhares de educadores em retiros que se sucediam no Vale de Schoenstatt, a poucos minutos do rio Reno, sobre a espiritualidade de uma personalidade interiormente livre, resistente a todo tipo de manipulação, enfatizando o valor da própria consciência, em plena harmonia com a vontade de Deus. Embora ele não tenha expressado isso abertamente, sua mensagem era claramente contra o regime. Uma personalidade livre é a última coisa que poderia interessar ao nazismo e, por essa razão, Kentenich foi rotulado, em um documento gerado em Berlim, como “inimigo número um do regime nazista”.

Quando o Pe. Franz Reinisch, membro do Movimento e alistado como capelão militar, foi forçado a fazer um juramento de lealdade a Hitler sob pena de morte, ele perguntou ao Pe. Kentenich sua opinião: se deveria jurar fidelidade ao líder nazista, como muitos padres haviam feito, salvando assim suas vidas, ou se deveria recusar tal ato. O Pe. Kentenich, coerente com seus princípios, respondeu que ele mesmo, Reinisch, deveria tomar uma decisão de consciência, livre e soberana diante de Deus, sem sequer insinuar que uma das opções poderia ser a mais adequada. Consciente de sua plena liberdade, Reinisch entendeu que Deus o estava convidando a não fazer tal juramento, o que o levou à morte por decapitação na guilhotina.

Pe. Kentenich decide não evitar ir para o campo de concentração

Enquanto estava preso em Koblenz, os nazistas decidiram enviar Kentenich para o campo de concentração de Dachau. Os membros do Movimento haviam conseguido que o médico da prisão concordasse em reavaliá-lo e, possivelmente, declará-lo inapto para o campo, uma vez que um de seus pulmões não funcionava. Mas, para isso, era necessário o pedido expresso do sacerdote para apresentar tal documento e tentar isentá-lo do campo. Na noite de 20 de janeiro de 1942, após dias de oração e profundo discernimento, Kentenich decidiu conscientemente nada fazer para evitar o campo. Em Schoenstatt, isso provocou inquietação, preocupação e desânimo. O Fundador estava indo para uma morte quase certa e, com ela, provavelmente também a da Família de Schoenstatt, ainda inacabada. Mas, mais uma vez ele colocou a consciência pessoal, a escuta da vontade de Deus e a total confiança em sua orientação como um valor mais alto do que qualquer consequência que uma decisão tomada de forma responsável poderia trazer.

Ele passou seis meses na prisão de Koblenz e três anos no campo de concentração de Dachau, no sul da Alemanha. Ali sofreu com as terríveis condições de vida em que mal se podia sobreviver. Durante esse tempo, dedicou-se a elevar o espírito dos sacerdotes de seu bloco e a escrever literatura, que saía do campo de forma ilegal, encorajando a Família de Schoenstatt a viver sua entrega radical ao Senhor e a Maria, confiando em seu poder e aprofundando o ideal do homem novo em Cristo. Nesse tempo de grandes provações e sacrifícios para ele e sua fundação, cresce e se fortalece a solidariedade de destinos entre o Pe. Kentenich e sua família espiritual. Assim, ele se tornou mais consciente de que, de acordo com os planos de Deus, a relação paterno-filial desempenhava um papel essencial no fortalecimento da entrega e da espiritualidade de seus filhos espirituais.

 

Espiritualidade e pedagogia da harmonia entre natureza e graça

Em 6 de abril de 1945, Kentenich foi libertado do campo de concentração pelas tropas dos Estados Unidos. Em seu retorno a Schoenstatt, ele sentiu que era o momento certo para compartilhar essas experiências com a Igreja. Em sua visão antropológica, pedagógica e eclesial, ele afirma que, para aspirar à santidade, não se deve negar ou reprimir a natureza humana, o humano, as criaturas, como o ideal tradicional de santidade promovia, mas sim, em consonância com São Francisco de Sales, ele ensina que um vínculo saudável com a criação, onde Deus, o Criador, se reflete e manifesta sua vontade, é o caminho e a proteção para alcançá-lo.

Da mesma forma, considera a importância transcendental dos vínculos naturais e das relações humanas, tanto na família natural quanto em uma comunidade, e o valor do papel paterno nas almas como condição para crescer afetivamente em vínculos sobrenaturais e em uma profunda relação filial com Deus Pai, como nos revela Jesus Cristo em seu Evangelho.

Antes de Dachau há pouquíssimas fotos do Pe. Kentenich. Isso se deve ao fato de que ele evitava estar em primeiro plano e relutava em aparecer visivelmente como o centro e a cabeça da Obra de Schoenstatt. Mas, quando ele sobreviveu ao campo de concentração e considerou a importância que o vínculo com ele teve para o crescimento espiritual de seus seguidores, que ofereceram esforços heroicos para resgatá-lo, ele recebeu claros sinais de Deus que o convidaram a assumir mais decididamente sua paternidade diante de seus filhos espirituais. Ficou claro para ele que não se tratava simplesmente de ser um farol ao longo do caminho, mas que sua missão como fundador exigia que ele, unido de coração aos seus seguidores, que aspiravam à santidade, fosse também um pai espiritual para eles e, por meio dessa relação viva, fosse o caminho para o coração de Deus Pai.

Quem não experimenta um amor paternal em nível humano pode ter sérias dificuldades para experimentar o amor de Deus Pai. Um exemplo muito claro dessa realidade é Santa Teresa de Lisieux. Ela teve uma profunda experiência de família e, especialmente, um relacionamento afetuoso com seu pai. Esse amor encheu sua alma e constituiu a força que lhe permitiu superar as mais duras provações no convento de Lisieux: um amor paterno humano a levou a uma profunda experiência filial, que a elevou às alturas da santidade, ao amor de Cristo e sua cruz, e ao amor de Deus Pai.

O Pe. Kentenich era uma figura paternal calorosa, mas também um educador com princípios claros. Seu objetivo sempre foi elevar as pessoas, integrando toda a sua realidade natural, ao mundo sobrenatural, ao coração de Deus Pai.

Pensamento e estilo de vida mecanicista

Em seu tempo, o Pe. Kentenich experimentou, como experimentamos ainda mais intensamente hoje em nossas vidas cotidianas, uma forte tendência de separar o humano do divino. Isso tem a ver com a influência do protestantismo. Deus é tudo, o ser humano não é nada, apenas miséria e pecado, as mediações são negadas (Maria, os santos, os sacramentos…), a graça não penetra, ou simplesmente, Deus e o mundo sobrenatural estão absolutamente ausentes e separados da realidade humana. Não há transcendência e o mundo é governado apenas por leis e mecanismos naturais.

Esse modo de pensar e viver também estava profundamente enraizado na Igreja Católica, a tal ponto que ainda hoje sentimos suas consequências. Dava-se importância a liturgias perfeitas, a definições teológicas exatas, ao cumprimento formal de preceitos, normas e ritos, mas isso geralmente não transcendia a vida cotidiana do católico. Muita pompa, mas nenhuma filialidade diante de Deus; alta elevação das autoridades eclesiásticas, mas pouca proximidade com o povo de Deus. Cumprimento externo, mas carência de conversão do coração.

Convite ao Bispo para visitar Schoenstatt

Depois de ter sofrido pessoalmente com o pensamento mecanicista em sua juventude, quando foi confrontado com a dicotomia que observou nos teólogos que em suas vidas não refletiam as verdades teológicas que pregavam, e quando viu que era uma forma generalizada de pensar e viver na Igreja, que tendia a separar fé e vida, o Pe. Kentenich entendeu que, após as experiências vividas durante a Segunda Guerra Mundial, Schoenstatt estava agora maduro e era um momento oportuno para compartilhar essas experiências com as autoridades eclesiásticas. Convidou o bispo de Trier, a diocese na qual Schoenstatt está localizado, para visitar as comunidades do Movimento, para compartilhar sua visão de uma Igreja renovada a partir das profundezas, mas especialmente a partir dessa experiência vivida.

Pensar, amar e viver orgânicos

O ponto central de sua visão é a importância de unir e integrar tudo o que Deus considera como unido e integrado: A espiritualidade não é apenas uma questão de domingos, mas deve ser um modo de vida, como santidade da vida diária; Deus está presente em toda a realidade humana, que não deve ser desprezada, mas é chamada a ser assumida e elevada; em vez de destacar a lei, que é necessária, promover uma relação profunda e filial com Deus; não separar Jesus de Maria, mas integrá-los, uma vez que, pela vontade de Deus, a missão de Maria era nos levar a Jesus e nos conduzir a Ele.

O Pe. Kentenich chamou o tecido que entrelaça toda realidade humana com Deus de “organismo de vinculações”. Os vínculos humanos da família, entre amigos, em comunidades; os vínculos positivos com ideais, com lugares e o vínculo com o Deus da vida, que tudo permeia, são para Kentenich o eixo do qual o homem depende para ter força para enfrentar os combates do mundo moderno e para poder viver uma sadia vinculação com Deus. É assim que ele confronta o pensar e o viver mecanicistas, que separam tudo, com o pensar, o amar e o viver orgânicos, que unem tudo o que Deus concebe como unido.

Santuário de Bellavista, Chile

Visitação diocesana

O bispo de Trier, em vez de aceitar o convite para visitar Schoenstatt e constituir uma comissão de estudos, enviou seu auxiliar, o bispo Bernhard Stein, mas para proceder a uma visitação canônica – diocesana – que envolvia uma investigação do Movimento. Isso ocorreu entre 19 e 28 de fevereiro de 1949.

Devemos ter em mente que Schoenstatt era um movimento jovem (foi fundado em 1914) e se expandiu rapidamente. A comunidade das Irmãs de Maria, por exemplo, contava com mais de 1.500 membros. Mas a questão é que Kentenich trazia ideias que eram difíceis de compreender para uma Igreja alemã que era bastante firme em suas convicções e não estava muito interessada em ouvir ideias novas e até mesmo diferentes. Schoenstatt estava convencido da ação de Maria em sua capelinha; aprofundou sua relação com Deus em uma aliança que seus membros selam nessa capela com Jesus e Maria, que eles chamam de “Aliança de Amor”; e usaram algumas palavras próprias, não comuns à Igreja. Embora a força apostólica do Movimento fosse reconhecida, “o novo” gerou desconfiança nos membros do episcopado.

O relatório da visitação

Em 27 de abril de 1949, o bispo Stein apresentou um relatório sobre sua visitação. Nele, afirma a ortodoxia doutrinária e moral de Schoenstatt, incluindo sua doutrina pedagógica. Ao mesmo tempo, ele expressa reservas sobre a prática pedagógica. Ele observa uma acentuada dependência das Irmãs em relação à figura do Pe. Kentenich.

O fundador recebe o relatório quando está em Nueva Helvecia, no Uruguai. Ele está ciente de que em alguns casos ocorreu essa dependência ou idealização de sua pessoa, mas também está claro para ele que não apenas não a apoia, mas que sua missão é precisamente formar personalidades livres. Sua pessoa deve motivar a elevar pessoas livres em direção a Deus, nunca a permanecer nele.

O Pe. Kentenich percebe que não havia sido compreendido. E como o relatório toca precisamente o núcleo do que ele identifica como a missão de Schoenstatt, em vez de minimizar o fato e deixar passar a crítica, ele decide responder a ela expressando que se trata precisamente do que ele vê como um tema essencial para a Igreja. Sua visão é a de um novo homem na nova comunidade: uma pessoa ancorada em Deus, mas ao mesmo tempo com vínculos humanos saudáveis e profundos e, nesse sentido, ele enfatiza a importância fundamental do princípio paterno, especialmente em um mundo que, em muitos casos, carece de relacionamentos familiares saudáveis, o que leva a uma ruptura emocional devido à falta de uma experiência humana da figura paterna. Nessa carta, ele expõe o pensamento mecanicista que caracteriza amplos círculos da Igreja e apresenta sua visão de um mundo orgânico.

 

Santuário de Bellavista

31 de maio de 1949: Arrisca a existência de Schoenstatt para o futuro da Igreja

Kentenich está consciente de que com esta carta arrisca sua própria reputação e o futuro da Família de Schoenstatt, mas entende que esses princípios são de vida ou morte para o destino da Igreja, especialmente no Ocidente.

Ele deposita a primeira parte desta carta sobre o altar do Santuário de Schoenstatt de Bellavista, Chile, em 31 de maio de 1949, oferecendo esta causa mútua a Maria e confiando que ela será glorificada nela, embora saiba que as consequências podem ser devastadoras, e nessa ocasião ele expressa:

“Temos que contar que este trabalho vai ferir profundamente corações nobres em nossa Pátria, vai despertar violenta indignação e provocar fortes e duros contra golpes. Não nos admiremos se este trabalho despertar um cerrado front comum de pessoas influentes contra mim e a Família. Humanamente falando, temos que contar que, no fim, nossa iniciativa está fadada a um total fracasso. E, no entanto, não podemos nos julgar dispensados de correr este risco. Quem tem uma missão deve cumpri-la, ainda que conduza aos mais negros abismos, ainda que um salto mortal siga ao outro. Missão de profeta inclui sempre sorte de profeta”. [1]

 

Mais uma vez, Kentenich arrisca o futuro da Família, sendo fiel à sua consciência.

Mais tarde, essa carta ficou conhecida como “Epistola Perlonga” (carta extremamente longa) por causa de sua extensão. Ela foi enviada ao bispo de Trier, Franz Rudolf Bornewasser, em resposta ao relatório da visitação. Em uma folha separada e explicativa, ele disse ao bispo que estava apenas relatando os fenômenos que havia observado, que pretendia ajudar a Igreja a encontrar um caminho mais orgânico e que não se tratava de nada pessoal com ninguém. Ele apresentou suas ideias com respeito e, como bom alemão, também com suprema clareza. O bispo Bornewasser enviou partes dessa Epístola Perlonga aos bispos alemães, mas sem incluir a explicação preliminar. Era de se esperar que os bispos não a lessem com prazer. Muitos deles a consideraram desrespeitosa. Lembre-se de que essa também era uma época em que as críticas à Igreja eram mal vistas. A carta disparou o alarme na Igreja. O Vaticano, por meio do Santo Ofício, enviou uma visita apostólica a Schoenstatt, o que levou ao exílio do fundador. Quatorze anos depois, ele seria libertado pelo Papa Paulo VI. O Pe. Kentenich retornou então a Schoenstatt para se dedicar às comunidades que havia fundado. Ele morreu em 15 de setembro de 1968.

Celebrações no Chile

O Movimento de Schoenstatt está se preparando para celebrar, em torno do Santuário de Bellavista, em Santiago do Chile, os 75 anos do ousado passo do Padre Kentenich em 31 de maio de 1949. As celebrações serão realizadas de sexta-feira, 31 de maio, a domingo, 2 de junho. As inscrições já estão encerradas para a participação presencial no local histórico de Bellavista, pois os 1.500 participantes registrados já ultrapassam a capacidade para a logística do evento. Haverá várias celebrações de acompanhamento em todo o mundo.

Você encontra mais informações neste link: jubileo31demayo.schoenstatt.cl

Relato do Pe. Kentenich sobre sua audiência com o Papa Paulo VI após sua libertação do exílio: jkentenich.org

[1]: Textos Escogidos sobre la Misión del 31 de Mayo, P. José Kentenich. Editor: P. Rafael Fernández de A. Editorial Nueva Patris

*Nota: a foto destacada é meramente ilustrativa e não corresponde ao texto da carta de 31 de maio

Fonte: schoenstatt.com