
Ir M Rosequiel Fávero – O mês de janeiro traz grandes recordações para a Família de Schoenstatt. Celebramos o Segundo Marco da História de Schoenstatt em 20 de janeiro, quando nosso Pai e Fundador, aceitou livremente ir para o Campo de Concentração de Dachau. Ele foi transportado ao Campo de Concentração em março de 1942, sendo libertado somente em maio de 1945. A história posterior demonstrou que apesar dos grandes riscos para a sua vida, os anos que passou em Dachau foram de grande atividade no sentido da espiritualidade de Schoenstatt e da expansão da Obra. Pois foi na prisão de Dachau que foram fundados o Instituto das Famílias e o Instituto dos Irmãos de Maria de Schoenstatt. Neste tempo foram dados passos fundamentais para a expansão internacional de Schoenstatt (basta recordar a inauguração do primeiro Santuário Filial, em Nueva Helvecia, em 18 de outubro de 1943) e foi escrito o livro ‘Rumo ao Céu’, entre tantos textos e hinos ditados pelo Padre Kentenich durante sua prisão.
Vamos hoje começar uma novena para nos preparar para este dia tão importante na históiria da Família de Schoenstatt. Usaremos a novena ‘Livre em Algemas’, publicada para o jubileu dos 50 anos do 20 de janeiro de 1942 (janeiro de 1992) e atualmente esgotada.
Que seja um itinerário espiritual que nos ajude a crescer na atitude de fé que caracterizou o Padre José Kentenich.
1º DIA – PRISIONEIRO NO CALABOUÇO
Em 1936, depois de algumas incertezas dos primeiros anos de sua ditadura iniciada em 1933, Hitler tomou firmemente em suas mãos o poder na Alemanha. Em junho de 1936 colocou na direção da Polícia alemã dois de seus mais devotados e menos escrupulosos paladinos: Henrique Himmler assumiu a chefia de toda a Polícia alemã e Reinhard Heydrich recebeu o comando do Serviço de Segurança, de modo especial da Polícia Secreta do Estado (Gestapo).
A opressão e a espionagem à Igreja foram intensificadas. Padre Kentenich e Schoenstatt não escaparam a esta perseguição.
Pode-se ver quanto a Obra de Schoenstatt despertou sobre si a atenção pelo extenso relatório secreto do Distrito Policial de Fulda, de 17 de novembro de 1939, ao Chefe Supremo do Serviço de Segurança sobre “O Movimento de Schoenstatt e sua atuação na Diocese de Fulda”. Como, entretanto, irrompera a guerra, a Gestapo, que era a primeira na luta contra a Igreja, não necessitava mais da mesma cautela que no tempo de paz,
No decorrer de 1941, a Gestapo intensificou a luta contra a Igreja por uma série de medidas: conventos foram ocupados, seus membros expulsos, presos sacerdotes e religiosos, em número crescente. Também em redor de Schoenstatt o cerco se fechava cada vez mais. Nos meses precedentes, dois colaboradores do Pe. Kentenich tinham sido presos injustamente: a 18 de abril, o Pe. Fischer, que já fora prisioneiro da Gestapo por seis semanas, em 1940; e a 4 de agosto, o Pe. Alberto Eise. Desde 6 de junho o Pe. Fischer fora confinado ao Campo de Concentração de Dachau. Agora chegara a vez do Pe. Kentenich.
No domingo, 14 de setembro, apareceram, na portaria da Casa de Retiros de Schoenstatt, dois agentes procedentes de Coblença, com o desejo de falar com o Pe. Kentenich. Ao final de um interrogatório, deram-lhe ordem de se apresentar no dia seguinte em Coblença para um novo interrogatório. Pe. Kentenich respondeu-lhes que não estava em condições de atendê-los, pois no dia seguinte iria iniciar um retiro para sacerdotes e uma boa parte deles já se encontrava em Schoenstatt. Os agentes concordaram que ele se apresentasse após o retiro. Logo
A 20 de setembro de 1941, bem cedo, de madrugada, Pe. Kentenich celebrou a Santa Missa no Santuário. Depois de pôr em ordem suas coisas, vestiu a batina mais velha que tinha e calçou um par de sapatos usados; despediu-se simplesmente dos que o acompanhavam, e encaminhou-se sozinho para a cidade de Coblença, distante a 7km de Vallendar-Schoenstatt. Alguns instantes antes das 8 horas, encontrava-se diante da cadeia. Tinha sido convidado para esse horário, mas teve que esperar 5 horas.
Depois de um longo interrogatório, Pe. Kentenich foi preso pela Gestapo em Coblença. A detenção não foi surpresa para o Pe. Kentenich.
Inicialmente foi conduzido para uma cela solitária no porão do edifício de um antigo Banco. Os cofres do Banco foram utilizados como celas e, como tais, eram muito escuras e úmidas, com o mínimo de ventilação. Cada cela tinha uma porta à meia altura que permitia ao guarda vigiar tudo o que o prisioneiro fazia. Havia apenas uma tábua que só podia ser usada à noite, não havia cobertores e nem travesseiros. As celas eram tão pequenas (1,50 m2) que as pessoas não podiam ficar totalmente de pé. Era-lhes forçoso ficarem de cócoras ou sentadas no solo úmido.
Das celas vizinhas escutavam-se gritos de desespero, maldições e grunhidos. Tudo isto desgastava os nervos de qualquer um. “Comecei a cantar diria o Pe. Kentenich mais tarde todos os cânticos que conhecia. Lamentei realmente não conhecer, de vários, mais do que algumas estrofes”. Isto o levou a pedir às Irmãs, depois da sua saída, que aprendessem todas as estrofes dos cânticos, pois que poderiam encontrar-se, algumas vezes, em situações semelhantes.
Pe. Kentenich permaneceu 4 semanas na prisão subterrânea, ao cabo das quais saiu intacto no corpo e no espírito, “como um vencedor” (testemunho de Mons. Paul Fechler, capelão da prisão). Era o dia 18 de outubro de 1941.
Ao ser retirado do calabouço, Pe. Kentenich foi levado à vizinha prisão de Coblença que até a secularização dos bens da Igreja, no começo do século XIX, fora um convento carmelita, cuja igreja servia agora como igreja paroquial da comunidade militar de Coblença. Ao ser levado à prisão, insistiu em ficar numa cela individual, no que foi atendido, mas por pouco tempo. Igualmente conseguiu da administração da prisão ficar livre do trabalho habitual dos prisioneiros, que consistia em colar sacos de papel. Finalmente, foi-lhe permitido conservar o traje preto e assim ser reconhecido como sacerdote.
MENSAGEM DO PADRE KENTENICH
“O mais precioso que o homem possui é a liberdade. Com amor sincero e ardente, ofereço esta liberdade para que o bom Deus conceda à Família, por todos os tempos, o espírito da liberdade dos filhos de Deus que anseio com tanto ardor. Antes de iniciar a sua paixão, Jesus rezou: “Ninguém me tira a vida…. eu a dou porque quero.” Eu também faço assim: Ninguém me tira a liberdade. Eu a entrego livremente… entrego-a porque Deus assim o deseja… E meu alimento, minha tarefa predileta é fazer a vontade daquele que me enviou, e cumprir a sua Obra”.
A oração rezada pelo Pe. Kentenich, no dia 18 de outubro, antes de sair do calabouço, revela sua prontidão total para cumprir a vontade de Deus:
“Jesus, se achas que eu não sirvo e não sou digno de te anunciar a teus prediletos, eu te peço: tua Mãe te leve a escolher um outro instrumento.
Ao menos num cantinho quero oferecer saúde, força e vida por este dom digno de Deus.
Não permitas que tua Família seja ameaçada por tempestades violentas antes que te conheça e te ame melhor.
Mãe, até agora conduziste teus filhos a Jesus. Mas agora, para continuar e completar tua atividade, exiges nossa colaboração consciente, total e profunda.
Não permitas que os teus enfrentem o alto mar antes de, por teus instrumentos, terem de certo modo concluído este trabalho. Para esta finalidade estou totalmente à disposição, com tudo o que sou e tudo o que tenho.
Queres o meu trabalho: Adsum! Queres o esvaimento lento de todas as forças espirituais: Adsum! Queres a minha morte: Adsum! Mas cuida que todos os que me destes amem a Deus, aprendam a viver e a morrer por Ele.”
PROPÓSITO
* A exemplo do Pe. Kentenich quero hoje dizer o meu SIM à vontade de Deus que se manifesta em alguma situação de minha vida, em algum imprevisto, mesmo renunciando a algo a que tenha direito.
ORAÇÃO PARA O DIA (Rumo ao Céu – 386 a 392)
Recebe, Senhor, pelas mãos de minha Mãe, a doação total de minha régia liberdade; recebe a memória, os sentidos e a inteligência, recebe tudo, como prova de amor.
Recebe todo o coração e toda a vontade, dá que eu assim sacie o verdadeiro amor. Minha maior felicidade é devolver-te, sem reservas, tudo o que me deste.
Dispõe sempre de tudo, como te aprouver, concede-me somente que eu te ame! Dá que, em toda parte, eu creia que tu me amas como a preciosa pupila dos teus olhos,
Concede-me graças que me impulsionem com vigor a tudo o que, sem ti, não ouso empreender; dá-me participar da fecundidade que teu amor concede a tua Esposa.
Torna-me fecundo para a terra de Schoenstatt: minha vida seja um ‘faça-se’ criador para tudo o que bondosamente planejaste, pela salvação das almas, através do Reino de Schoenstatt.
Então poderão chamar-me rico, sumamente rico, jamais alguém poderá dar-me felicidade maior; nada mais quero desejar: o que dispões é bom e certo para mim.
Meu Senhor e meu Deus, toma tudo o que me prende e diminui meu forte amor por ti; dá-me tudo o que faz crescer o amor a ti, tira-me o eu, se estorvar o amor. Amém
[1] Da prisão de Coblença chamada “Carmelo” (por estar num edifício que antigamente fora um convento de frades carmelitas), Padre José Kentenich escreveu, no dia 28 de outubro de 1941, sua primeira carta enviada à Direção das Irmãs de Maria. A essa carta ele anexou uma versão em prosa, ampliada, da oração de Santo Inácio “Suscipe” (“Recebe”), para implorar a liberdade cristã. É interessante observar como os conteúdos inacianos aqui são postos no contexto da infância espiritual, da condução providencial de Deus e do serviço a uma missão concreta. O Padre Alberto Eise rezou muito esta oração, em meio às angústias de Dachau, até o dia de sua morte no Campo de Concentração. Mais tarde o Padre Kentenich inseriu este texto na obra “Espelho do Pastor”, estrofes 4492 a 4494 a 4496 a 4499.
